segunda-feira, 16 de março de 2009

Sonhar Não Custa Nada


Do outro lado da rua o prédio de dois andares parecia abandonado. No topo um grande vitral com figuras geométricas coloridas acolhia a sujeira da vida moderna. Abaixo, uma ampla marquise sustentava estátuas de anjos. A pintura mostrava claramente a passagem do tempo sobre aquelas paredes casadas com grandes molduras. As janelas pareciam gritar aos ventos para serem abertas. A enorme porta entreaberta dominava aquele que a olhasse por mais de vinte segundos. A pequena escada transformada em dormitório trazia o cheiro inesperado da aflição. Um convite ao medo.
A porta é empurrada e o barulho da madeira apoiada por dobradiças enferrujadas causa arrepios. Cada passo é dado com muito cuidado. Um a um. A luz é pouca, apesar do sol forte lá fora. À direita cadeiras entulhadas formavam um emaranhado de ferro e tecido vermelho. À esquerda roupas rasgadas e sapatos apodrecidos. Mais abaixo, alguns manequins jogados choravam sugestivamente a falta dos braços e pernas.
De repente algumas luzes vindas de cima se acendem, o palco fica visível, permitindo visualizar a figura desenhada na grande cortina de veludo verde. Um pássaro de corpo e de asa, com cabeça de gato. Não se parecia com os anjos da marquise. O som forte anunciava o começo de alguma coisa, ou o fim de alguém. Mais luzes, mais som. A cortina se abre. Meu corpo fica inerte ao ver o que havia atrás das cortinas.
Um bebê, uma criança de cinco anos, uma de dez, um adolescente de quinze e um jovem de vinte. Todos parados, em silêncio. Cada um com uma rosa na mão direita. Apenas o bebê tinha a rosa ao seu lado, dentro do cesto onde estava deitado. Mal o ar chegava aos meus pulmões. A respiração tornava-se cada vez mais difícil. Uma voz feminina convida para subir ao palco. O convite é irrecusável.
No primeiro passo rumo ao palco as luzes se apagam. Apenas vultos são perceptíveis aos olhos arregalados pelo suspense do futuro próximo. A voz indica para ficar ao lado do jovem de vinte anos. As luzes voltam a se acenderem, enquanto espelhos aparecem a nossa frente. Viro o olhar para a direita e me vejo refletido no espelho da criança de cinco anos. Os espelhos se quebram e os cacos de vidros voam para trás. As cortinas se fecham e a escuridão retorna. Tento, mas não é possível me movimentar.
Lágrimas de angústia escorrem sobre o meu rosto incrédulo diante dos acontecimentos. Sinto uma mão tocar-me. Macia e delicada ela percorre meu pescoço descendo sobre o meu peito. Não vejo a dona daquela mão, mas percebo se tratar de uma mulher belíssima. Sua mão volta sobre o meu peito, passa sobre o meu rosto, parando nos meus olhos. O cheiro indescritivelmente perfeito daquela pele me acalma. A voz sussurra em meu ouvido afirmando que minha vida a ela pertence. Não consigo negar.
Não sei quanto tempo passou, porém, ao abrir meus olhos me deparo com um enorme vitral de figuras geométricas brilhante como um diamante. Percebo que não toco o chão e ao olhar para baixo me surpreendo com a altura. Estou acima das pessoas circulando sobre a calçada e elas nem ao menos me olham. A voz feminina me salda com um agradável, “seja bem vindo”. Não entendo nada e o meu rosto se transforma em um grande ponto de interrogação.
De repente uma voz infantil grita em minha direção. “Aniel! Aniel!”. Viro para trás e a surpresa é grande. Um anjo voa a minha frente sinalizando com as mãos para as minhas costas. Mais uma surpresa. Compreendo o sinal e verifico. Duas asas me sustentam no ar. Naquele momento entendo o que me tornei. As pessoas andando, dirigindo seus carros, todas parecem freneticamente hipnotizadas pela ganância. Desço até a porta do prédio, ela abre sem o meu toque. Entro e pouso sobre um tapete vermelho. O lugar está lotado. Todas as cadeiras ocupadas por pessoas falando sem parar. O barulho é irritante. Penso comigo para que todas fiquem quietas. Como em um passe de mágica, todas se calam. Fico surpreso, porém, satisfeito. A cortina do palco se abre e começa um colorido espetáculo de crianças. Muitas luzes, muitas cores fortes enchem o teatro de alegria e diversão.
Assisto a tudo sem piscar os olhos, atônito. Começo a andar lentamente entre as inúmeras fileiras de cadeiras. Reparo em cada sorriso da platéia como uma águia em sua presa. Dentre tantos sorrir, um me causa fascínio imediato. Era ela, bela e feliz. De olhos grandes e rosto largo. De pele branca e cabelos loiros. Atração deveria ser o seu nome. Não podia me aproximar mais. Tinha medo de ser visto. Agachei-me ali mesmo a espera do fim da apresentação. Duas horas se passaram. Três horas e nada. O cansaço consumia meu corpo. Não resisto e adormeço.
Acordo deitado em um degrau sujo, o cheiro é insuportável. Esfrego os olhos e reconheço aquela escadaria. Olho para cima e reconheço aquela marquise. O alivio é inevitável. Estou em casa. Levanto e vou procurar algo para comer. Percebo que ainda é cedo. Vou até o bar de sempre e peço um pão ao balconista. Nada consigo. Vou a uma padaria e consigo uma fatia de pão com manteiga de uma senhora. Não me contento. Vou até a barraca de café da Tia Eliza e além do seu ótimo humor, ganho um copo de café e um pedaço de bolo de chocolate. Caminho de volta para o meu lar observando o movimento daquela manhã aumentar a cada instante. Passo em frente à loja de doces e vejo meu reflexo na vitrine. Paro e penso. Quem sou eu? Não consigo responder a minha indagação. Será que sou alguém? Não sei. Apenas sei não existir. Entendo a vida como rojões brilhando no céu escuro da virada de calendário, pois são meus únicos momentos de alegria durante todo o ano. Nos demais dias apenas corro e fujo. Corro atrás da sobrevivência e fujo da miséria. Nunca alcancei nada e muito menos consegui fugir. Neste meu mundo apenas consigo sonhar. Por isso, vou voltar a dormir. Quem sabe aquele lindo rosto reaparece, para que o seu sorriso alegre a minha existência.

2 comentários:

Bruna e Marcos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bruna x) disse...

Passando pra deixar um beijo :*