terça-feira, 24 de julho de 2012

Crônicas de um Tumor (D21)


O Brasil não pode continuar a ser o país da impunidade. Acabei de ouvir isso do Boris, boa noite! Acho que a sinusite atacou e a coriza já está incomodando. Logo passa pensa eu. A imunidade já está melhor e pronta para mais uma aplicação nesta terça-feira. Duas horas de meditação e observação. Ali sentado da tempo de fazer muita coisa. Eu costumo dormir. Brincadeira vou ao sanitário tantas vezes na quimioterapia, que até o fim do tratamento arrisco saber quantos azulejos tem no banheiro.
 Hoje decidi publicar um texto do jornalista e escritor Ivan Lessa (1935–2012) para homenageá-lo. Esta foi à última crônica escrita pelo autor. Um prazer.


  “Orlando Porto. Taí um nome como outro qualquer. Podia ser corretor de imóveis, deputado, ministro, farmacêutico. Mas não é. Trata-se de um anagrama de um escritor francês - e ator e ilustrador bom e autor e figurinha difícil francesa e aquilo que se poderia chamar de "frasista". Feio como um demônio, no meio da década de 50 cansei de dar com ele dando comigo lá pelo Boulevard St. Germain, cheretando o Flore, o Lipp, fazia uma cara que quem ia dizer algo importante e logo sumia na companhia do Jean-Pierre Léaud, aquele maluquinho dos filmes autobiográficos do Truffaut.
Dupla estranha. Os desenhos do -esse seu nome, artístico ou de batismo, Roland Topor- eram bacaninhas. Mas sempre foi Orlando Porto para mim. Fez cinema também. O Inquilino do Polanski, o Reinfeld de Nosferatu, do Werner Herzog. Até que bateu o que ocultava seus pés: umas botas estranhas como ele.
De vez em quando, numa revista esotérica, dou com ele. Ei-lo numa em inglês com "100 boas frases para eu matar agorinha mesmo". Se chegou ao fim, e chegou, foi pelo cachê. Meros galicismos literários.
E aí trago à cena, mais uma vez, porque cismei, mestre Millôr Fernandes. Esse era profissional. Nada a ver com "frasista". Trabalhava com a enxada dura da língua. Nunca para dar a cara no Flore, principalmente com Topor e Léaud.
Reli umas 100 frases do Orlando, ou Topor, e não resisti à tentação de, em algumas delas dar-lhes uma ginga por cima e outra por baixo, à maneira do frescobol querido do mestre, só para exercitar os músculos muito fora de forma.

 Cem razões: Faço por bem menos, mas mais Copacabana e Leblon. Algumas raquetadas minhas em homenagem ao mestre cuja falta continuo sentindo:

- Melhor maneira de verificar, antes, se já não estou morto.
- Mas não se mata cavalos e malfeitores?
- Pelo menos eu driblaria o câncer.
- Milênio algum jamais me assustará.
- Apanhei-te horóscopo! Pura enganação!
- Levo comigo a reputação de meu terapeuta.
- Pronto, agora não voto mais mesmo! Chegou!
 - Aí está: uma cura definitiva para a calvície.
 - Enfim cavaleiro do reino de sei lá o quê.
 - A vida está pelos olhos da cara. Pra morte eles fazem um precinho especial, combinado?
 - Enfim, ano bissexto nunca mais. Esses ficam para o Jaguar. O resto pro Ziraldo.
 - Ao menos é uma boca de menos a sustentar. - Só quero ver quanta gente vai sincera no meu funeral.
 - Pronto! Inaugurei estilo novo: Arte Morta.
- Sabe que minha vida não daria um filme. O livro eu já escrevi. Deixem o desgraçado em paz, peço-lhes.
 - Custou, mas estou acima de qualquer lei que vocês bolarem aí.
- Levou tempo, mas cortei enfim meu cordão umbilical.
- Roncar, nunca mais. Nem eu nem ninguém ao meu lado.
- Que desperdício nunca ter fumado em minha vida!
- Consegui preservar o mistério sempre giarando em meu torno.
- Maioria silenciosa? Essa agora é comigo.
- Na verdade, nunca me senti à vontade nessa posição incômoda de cidadão do mundo.
 - Ei, juventude, pode vir que pelo menos uma vaga esrá aberta.
- Emagrecer é isso aqui.
- Agora é conferir se, do outro lado, sobraram tantas virgens assim.


E assim, cada vez que um "frasista" passar por perto de mim, leve uma nossa: minha e de Millôr. Dois contra um a gente ganha mole.

3 comentários:

berenice disse...

Olá Rafa, é tia bere, desculpe-me por não ter falado com vc, mas tenho noticias suas todos os dias, Estou tão sensivél com tudo isto, que me emociono a cada vez que fico sabendo algo de vc, talvez por isso não te ligo, porque o choro é certo. Mas, continuo com as minhas oraçoes e o que me conforta e me da entedimento pra tudo o que esta acontecento,continuo a pedir a DEUS PELA SUA RECUPERAÇÃO. Rafa, quanta coisa legal voce tem escrito, que lição vc tem nos dado, continue assim com esta força, mas não abuse, seja temeroso, não substime a sua capacidade fisica, desculpe-me mas se cuide. bjs fique com DEUS.

Guedes Creci/SC12634 - Florianópolis disse...

http://www.youtube.com/watch?v=RLt6ZQc06cc

Giovane Gaspar Benedet disse...

Olá!
Q maravilhoso cara ter criado esse blog! Também criei um para tratar o meu acidente a muito tempo atrás!
Qual seu e-mail,queria entrar em contato com vc! Força Sempre!