quinta-feira, 2 de abril de 2009

Ainda é tempo...!


por: Rafael Costa



O tempo não é só o tempo passando e dizendo a você cada passo a ser dado em sua vida. O tempo é a única maneira do homem descobrir quanto tempo falta para tentar ficar com mais tempo. Mais tempo para viajar, mais tempo para a família, mais tempo para o cachorro. O tempo não te faz ser mais ou menos apressado, o tempo apenas te antecipa ou te reduz. O tempo não colhe frutos verdes. O tempo não sente a dor do coração. O tempo é apenas tempo.

Tempo é a harmonia entre o acaso e a semelhança. É a vida dizendo a você. Corra! Pare! O tempo é solitário. É tímido, incapaz de machucar. O tempo esconde-se atrás da montanha de pedidos involuntários entregues a ele pela paciência. O tempo não acaba. Não começa. O tempo se dissolve nas falas humanas do cárcere cerebral. O tempo é tudo que você ainda não teve e tudo que você tem. O tempo é você. O tempo sou eu.

O tempo corre em nossas veias. Clareia nossa visão. Esconde nossos defeitos. Demonstra nossas qualidades. O tempo nos adormece. O tempo é apenas passar o tempo. Jogar bola com amigos. Namorar. O tempo é pai, é mãe. O tempo fortalece os fracos. Oprime os fortes. Julga os corretos e castiga os devassos. O tempo nos ensina a viver. O tempo mata. O tempo está sempre no seu devido tempo. O tempo nos reconhece. Ainda é tempo...!

segunda-feira, 16 de março de 2009

Sonhar Não Custa Nada


Do outro lado da rua o prédio de dois andares parecia abandonado. No topo um grande vitral com figuras geométricas coloridas acolhia a sujeira da vida moderna. Abaixo, uma ampla marquise sustentava estátuas de anjos. A pintura mostrava claramente a passagem do tempo sobre aquelas paredes casadas com grandes molduras. As janelas pareciam gritar aos ventos para serem abertas. A enorme porta entreaberta dominava aquele que a olhasse por mais de vinte segundos. A pequena escada transformada em dormitório trazia o cheiro inesperado da aflição. Um convite ao medo.
A porta é empurrada e o barulho da madeira apoiada por dobradiças enferrujadas causa arrepios. Cada passo é dado com muito cuidado. Um a um. A luz é pouca, apesar do sol forte lá fora. À direita cadeiras entulhadas formavam um emaranhado de ferro e tecido vermelho. À esquerda roupas rasgadas e sapatos apodrecidos. Mais abaixo, alguns manequins jogados choravam sugestivamente a falta dos braços e pernas.
De repente algumas luzes vindas de cima se acendem, o palco fica visível, permitindo visualizar a figura desenhada na grande cortina de veludo verde. Um pássaro de corpo e de asa, com cabeça de gato. Não se parecia com os anjos da marquise. O som forte anunciava o começo de alguma coisa, ou o fim de alguém. Mais luzes, mais som. A cortina se abre. Meu corpo fica inerte ao ver o que havia atrás das cortinas.
Um bebê, uma criança de cinco anos, uma de dez, um adolescente de quinze e um jovem de vinte. Todos parados, em silêncio. Cada um com uma rosa na mão direita. Apenas o bebê tinha a rosa ao seu lado, dentro do cesto onde estava deitado. Mal o ar chegava aos meus pulmões. A respiração tornava-se cada vez mais difícil. Uma voz feminina convida para subir ao palco. O convite é irrecusável.
No primeiro passo rumo ao palco as luzes se apagam. Apenas vultos são perceptíveis aos olhos arregalados pelo suspense do futuro próximo. A voz indica para ficar ao lado do jovem de vinte anos. As luzes voltam a se acenderem, enquanto espelhos aparecem a nossa frente. Viro o olhar para a direita e me vejo refletido no espelho da criança de cinco anos. Os espelhos se quebram e os cacos de vidros voam para trás. As cortinas se fecham e a escuridão retorna. Tento, mas não é possível me movimentar.
Lágrimas de angústia escorrem sobre o meu rosto incrédulo diante dos acontecimentos. Sinto uma mão tocar-me. Macia e delicada ela percorre meu pescoço descendo sobre o meu peito. Não vejo a dona daquela mão, mas percebo se tratar de uma mulher belíssima. Sua mão volta sobre o meu peito, passa sobre o meu rosto, parando nos meus olhos. O cheiro indescritivelmente perfeito daquela pele me acalma. A voz sussurra em meu ouvido afirmando que minha vida a ela pertence. Não consigo negar.
Não sei quanto tempo passou, porém, ao abrir meus olhos me deparo com um enorme vitral de figuras geométricas brilhante como um diamante. Percebo que não toco o chão e ao olhar para baixo me surpreendo com a altura. Estou acima das pessoas circulando sobre a calçada e elas nem ao menos me olham. A voz feminina me salda com um agradável, “seja bem vindo”. Não entendo nada e o meu rosto se transforma em um grande ponto de interrogação.
De repente uma voz infantil grita em minha direção. “Aniel! Aniel!”. Viro para trás e a surpresa é grande. Um anjo voa a minha frente sinalizando com as mãos para as minhas costas. Mais uma surpresa. Compreendo o sinal e verifico. Duas asas me sustentam no ar. Naquele momento entendo o que me tornei. As pessoas andando, dirigindo seus carros, todas parecem freneticamente hipnotizadas pela ganância. Desço até a porta do prédio, ela abre sem o meu toque. Entro e pouso sobre um tapete vermelho. O lugar está lotado. Todas as cadeiras ocupadas por pessoas falando sem parar. O barulho é irritante. Penso comigo para que todas fiquem quietas. Como em um passe de mágica, todas se calam. Fico surpreso, porém, satisfeito. A cortina do palco se abre e começa um colorido espetáculo de crianças. Muitas luzes, muitas cores fortes enchem o teatro de alegria e diversão.
Assisto a tudo sem piscar os olhos, atônito. Começo a andar lentamente entre as inúmeras fileiras de cadeiras. Reparo em cada sorriso da platéia como uma águia em sua presa. Dentre tantos sorrir, um me causa fascínio imediato. Era ela, bela e feliz. De olhos grandes e rosto largo. De pele branca e cabelos loiros. Atração deveria ser o seu nome. Não podia me aproximar mais. Tinha medo de ser visto. Agachei-me ali mesmo a espera do fim da apresentação. Duas horas se passaram. Três horas e nada. O cansaço consumia meu corpo. Não resisto e adormeço.
Acordo deitado em um degrau sujo, o cheiro é insuportável. Esfrego os olhos e reconheço aquela escadaria. Olho para cima e reconheço aquela marquise. O alivio é inevitável. Estou em casa. Levanto e vou procurar algo para comer. Percebo que ainda é cedo. Vou até o bar de sempre e peço um pão ao balconista. Nada consigo. Vou a uma padaria e consigo uma fatia de pão com manteiga de uma senhora. Não me contento. Vou até a barraca de café da Tia Eliza e além do seu ótimo humor, ganho um copo de café e um pedaço de bolo de chocolate. Caminho de volta para o meu lar observando o movimento daquela manhã aumentar a cada instante. Passo em frente à loja de doces e vejo meu reflexo na vitrine. Paro e penso. Quem sou eu? Não consigo responder a minha indagação. Será que sou alguém? Não sei. Apenas sei não existir. Entendo a vida como rojões brilhando no céu escuro da virada de calendário, pois são meus únicos momentos de alegria durante todo o ano. Nos demais dias apenas corro e fujo. Corro atrás da sobrevivência e fujo da miséria. Nunca alcancei nada e muito menos consegui fugir. Neste meu mundo apenas consigo sonhar. Por isso, vou voltar a dormir. Quem sabe aquele lindo rosto reaparece, para que o seu sorriso alegre a minha existência.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Darwin, neoliberalismo e o fim da história


Por Emerson Souza Gomes - emerson@puglieseegomes.com.br

A seleção natural de Darwin afirma, dentre outras, que os seres que melhor se adaptam ao meio, prosperam, enquanto que os menos aptos, sucumbem. Trata-se assim de um processo que tem o seu desenvolvimento desde os tempos decanos da história até os dias presentes, e que frutifica numa evolução constante das espécies. Por certo, pode-se afirmar que qualquer interferência que não seja da própria natureza, tende a abortar a evolução, o melhoramento. Bem, pode o leitor questionar: O que tem haver uma coisa com a outra? O que há na filosofia política do neoliberalismo que se relacione com Darwin, com a natureza, com evolução e com o fim da história?


Antes de tudo (antes de falar de neoliberalismo), para que não sejamos alvo de preconceito e do medo que a verdade impõe a alguns, é bom fixar com clareza hialina que devemos invariavelmente desconfiar de qualquer discurso antiindividualista. Devemos desconfiar do signo do banquinho e da locução do líder que remete: Meu povo, meu povo, meu povo!!! Sabemos que nem sempre onde há fumaça, há fogo e esta acepção coletiva da cidadania foi utilizada enormemente pelos regimes mais vis, mais totalitários, que de forma abrupta cercearam a liberdade em todos as suas flexões (e.v. nazismo, fascismo).


A despeito disso, Marx na sua letra científica enunciou que os animais precisam concorrer pois o consumo dos recursos naturais por uns pode ameaçar a sobrevivência de outros. Os seres humanos: não. Estes produzem, e se produzem até mesmo com excesso (com lucro) podem produzir coletivamente assegurando não só a sobrevivência de todos, mas a insubmissão de uns a outros. Fato é que toda doutrina coletiva acaba no final na música do mamute, posto que na história o preço mais caro da liberdade foi a vida e mesmo assim foi um preço justo. Afora Darwin, Marx e mais um turbilhão de ideólogos, políticos, cientistas, economistas e sociólogos que a humanidade revela hodiernamente, quero fazer uma pequena alusão ao cinema e sobre o que podemos entender como o fim de uma estória, como o real the end.


Dizer que "Casablanca" e "E o Vento Levou" terminaram com o the end expresso na tela de nada vale como fim, a não ser como um sinal de que devemos ir da sala às nossas casas, posto que tristeza (como disse Vinícius) não tem fim, porém erra o poeta, ao afirmar que felicidade sim. O final feliz do cinema somente exprime uma continuidade do bem, da felicidade eterna e inconcebível. Tanto no final triste como no happy end a história não chega ao seu termo, significando exclusivamente que para nós (seres bípedes, emotivos e pensadores) o sumo bem ou o mal subreptício, não merece a nossa audiência por muito tempo. Aceitamos no máximo o serialismo da teledramaturgia que nos conta sempre as mesmas estórias, os mesmos dramas, aventuras, romances, de formas artificiais (culturais), mas que nem por isso implicam numa estória de fim. Fica assim a interrogação: Qual é o fim real da estória? A inteligência de Shakespeare matou os protagonistas da sua mais ilustre: Romeu e Julieta, fazendo com que pensemos ser o fim da estória, mesmo, o fim da própria existência. Entretanto, a genialidade do autor para o fim apocalíptico, foi tão grande que Romeu e Julieta continuam ainda hoje morrendo eternamente (tal qual o Cristo na cruz), nas suas várias revisitações no teatro, na tv, no cinema, e nos remakes vários, e esta estória, senhores!, não tem fim.


Voltemos agora ao neoliberalismo e pensemos ele como darwiniano, onde a livre concorrência é uma lei econômica que provê os organismos de eficiência e de qualidade, onde a globalização (arrostada no sentido strito e atual: econômico), vem propugnando uma desfronteirização e com ela uma desnacionalização tal qual a do signo primitivo do homem saindo das cavernas, onde se antes para este as fronteiras eram apenas as naturais, hoje, para o homem moderno, o são tão somente econômicas e algumas fundamentalistas. Pensemos na exclusão do Estado que mais e mais deixa de ser um provedor do bem comum para apenas regular, espectar a ordem econômica, e atuar paliativamente na ordem social. Mais que isto, pensemos que o Estado intervém na economia quando legisla. Quando legisla positivamente direitos sociais e lembremos da livre negociação, da flexibilização das leis do trabalho, da reforma previdenciária; de que o Estado não pode intervir, posto que é anti-econômico (ou anti-natural) Decerto, fica aqui a incógnita: Isto é bom ou mal? Isto gerará evolução ou melhor, desenvolvimento?


Para uma sociedade transformista que precisa modificar sua realidade ou talvez antes unificar todas as realidades sociais de um pai-contraste chamado Brasil; que pugna por Justiça Social através de um direito feito exclusivamente pela maioria (e isto é uma tarefa hercúlea: cada cabeça, um voto. O Direito é o da maioria, mas a Justiça tem que ser para todos, afora o fato que os poderes do Estado mais se apresentam como caixa de ressonância de um poder exógeno, minoritário, e apátrida); onde o pluralismo é a pedra de roseta para se eliminar os apontamentos covardes, discriminatórios e preconceituosos que pesam em berço esplêndido sobre as minorias ou talvez sobre as maiorias minoritárias (negros, colonos, miseráveis); sermos darwinianos, hoje, é racional?...."No fundo todos somos liberais, pois amamos a liberdade, mas queremos para esta liberdade, democracia. Uma democracia social, humanizante, dignificante".


Por último, cabe novamente voltarmos ao cinema e concluirmos (como já anotado) que estória não tem fim, mas história, sim... e talvez este seja apenas um, o seu próprio começo, tal qual o reverso do mito ancestral, o do homem da caverna que sai para viver em sociedade, ... talvez façamos o caminho inverso: Voltemos pós-darwinianos para o seio da nossa escura, úmida e solitária caverna, desterrada caverna ... extremamente individualizados, medrados e violentos e aqui, infelizmente, não posso terminar esta estória! com um ponto final e sim com outra interrogação: "- Chegamos ao fim da história?"

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009




As pessoas que acompanham o “Sente-se por favor”, perceberam que publico capas de filmes como sugestão e principalmente como referencia ao tema abordado. Seja ele ficcional ou factual. Sendo assim, todas as capas são selecionadas após a escrita da crônica e não posterior, para não perder o foco do objeto. Tantas leituras e escritas me deram um senso de direção importante, o qual tento fazer de minhas crônicas uma conversa de bar. Um encontro no supermercado.
Estou a dias pensando em como escrever sobre a corrupção, tentando encontrar uma maneira de não parecer simplório, não deixar o meu senso-comum falar enquanto escrevo. Mas está difícil - a corrupção rebaixa nosso palavreado quando pensamos nela - e, perante esta dificuldade encontrei uma antiga crônica a qual eu havia escrito há alguns anos atrás, sobre a deputada federal Ângela Guadagnin (PT-SP), e sua dança canalha. A foto abaixo vai refrescar suas memórias.








“Quem dança seus males espanta (ou não)”

por: Rafael Costa

Dançar. “Movimentar o corpo seguindo o ritmo musical”. Esta era a descrição do verbo dançar até o dia 23 de março de 2006, quando uma deputada federal resolveu reinventar o movimento corporal acompanhado por sons. Agora não mais é preciso haver música para dançar. A impunidade tornou-se canção para os ouvidos de seres como a “deputada dançarina” fazer da câmara o seu salão de festas e de seus nobres companheiros de profissão, felizes admiradores do rebolado infame.
A harmonização começa com um discurso veemente, seguido de um refrão de votos proveitosos, tendo como melodia a corrupção política. Proponho de imediato a criação de uma nova banda. Seus integrantes terão salários exorbitantes, regalias e patrocínio oficial do Governo Federal. A câmara dos deputados será palco dos seus maiores espetáculos. Estive até pensando em convidar a respeitada deputada para participar do Festival de Dança de Joinville. Concorrendo na categoria “desprezível” e apresentando sua coreografia, “O povo que se dane”.
A população brasileira não merece tamanho desrespeito e humilhação. Nada justifica a ação da deputada. Contudo, justificará a reação da opinião pública, ou seja, sua comemoração será vossa sentença. Infelizmente não acredito em qualquer punição para a “bailarina petista”. Acredito apenas na indignação nacional, no ditado “aqui se faz, aqui se paga”. A urna será seu caixão para o funeral de sua morte política.


Obs: Ângela Guadagnin tentou a reeleição, mas seu saracotear não foi aceito pelo eleitorado paulista.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

DOENÇA CRÔNICA


Tenho lido muitas crônicas ultimamente e percebi algumas similaridades em textos de autores tão distintos. Distintos no sentido da regionalidade, mas iguais nas coesões textuais. Claro! Você vai dizer. “São crônicas seu idiota”. Eu sei deste pormenor desde o momento em que começo até o término de cada texto. Só não entendo porque a maioria trata das mazelas de suas cidades como um romance de verão.
Crônica não é apenas frases irônicas criadas pelo olhar singular do autor. Crônica é alma. É perversão transformada em palavras por mãos sádicas. Crônica é cabeça de cobra com corpo de tigre. É rival da malandragem e parceira da ingenuidade. Poucos sabem fazer crônicas, muitos pensam fazer crônicas e a maioria apenas narra um passeio no parque do qual observou aquela criança albina, de pele transparente e boné estranho correndo em direção a sua mãe, enquanto outras crianças zoam com a sua cor pálida. Qualquer ser alfabetizado sabe descrever com muito humor, como é cagar e não ter papel higiênico no banheiro para se limpar.
Agora você vai dizer: “Quem é você pra dizer isso e baseado em que?”. Muito prazer, Rafael Costa, casado, tio e favorável ao não-comodismo. Digo tudo isso com base na leitura de crônicas inférteis. Talvez esta seja uma, pois escrevendo dessa maneira arrogante o símbolo da indiferença apareça a sua frente neste momento, seguido da frase. “Que otário”. Diante das palavras acima não se enquadram Machado de Assis, Rubem Braga, Elsie Lessa, Fernando Sabino, Arnaldo Jabor, entre outros mestres que fazem da crônica uma doença crônica. Não quero causar inimizades, muito menos discutir o certo do errado ou qual o cor do coelho da Mônica. Quero apenas o reconhecimento antes de saberem que vou viver por muito tempo.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

CONFLITO + TOLICE = MORTES


Soberano é o homem diante de todas as coisas. Inteligente, viril e acima de tudo articulador. Detentor de recordes estabelecidos por ele mesmo. Espaço nunca foi um problema. Temos muitas terras a serem exploradas. Temos muitas águas a serem consumidas. Temos muita comida a ser ingerida. Devemos dividir em partes – sejam elas iguais – ou não. Devemos pensar no próximo para que o próximo possa pensar. Ingênuo engano. Em qual mundo você nasceu?

Eu nasci na Terra. Suja de sangue. Histórias para contar são muitas, para esquecer são poucas. Quer ler uma? Era uma vez, um homem de bigode estranho e cabelo lambido. Sua face representava o poder sobre os fracos de alma, corpo e mente. Multidões o aplaudiam, e multidões o temiam. Os dois lados eram fracos, somente o homem de bigode estranho e cabelo lambido sabia o que era certo para os aplausos e os temerosos. Os anos se passaram e poucos aplausos e temores sobraram a ele. Restou apenas a solidão da morte para quem sabe reencontrar suas multidões.

Pelejas gratuitas e fora de qualquer contexto social, político e religioso transformam a vida de muitos em pouco importantes. Pouco interessantes. Escrevo em vermelho pelo sangue que escorre em minhas veias, pelo sangue que jorra de pessoas simples, pelo sangue que abençoa o terror. Guerras inúteis, aparências do medo e da ilusão pelo poder. Forçam suas mentes em busca do prestígio, da realização material e se esquecem de que um dia terão o mundo aos seus pés. Contudo, suas mãos estarão livres para fazer o que nunca ou poucas fizeram de coração aberto, rezar.

Rafael Costa

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

"JESUS CHOROU"



O texto abaixo é o início da música "Jesus Chorou" dos Racionais Mc`s. Vale a pena relfetir, vale a pena entender...


Felis Natal e um 2009 cheio de realizações!





"O que é o que é??Clara e salgada, cabe em um olho e pesa uma tonelada...tem sabor de mar,pode ser discreta, inquilina da dor, morada predileta....na calada ela vem, refém da vingança, irmã do desespero, rival da esperança... pode ser causada por vermes e mundanas...e o espinho da flor, cruel que vc ama, amante do drama, vem pra minha cama, por querer, sem me perguntar me fez sofrer...e eu que me julguei forte...e eu que me senti...serei um fraco, quando outras delas vir..se o barato é louco e o processo é lento...no momento...deixa eu caminhar contra o vento...o que adianta eu ser durão e o coração ser vulnerável...o vento não, ele é suave, mas é frio e implacável....(é quente) borrou a letra triste do poeta (só) .....correu no rosto pardo do profeta...verme sai da reta...a lágrima de um homem vai cair...esse é o seu B.O. pra eternidade...diz que homem não chora...tá bom, falou...não vai pra grupo irmão ai .... JESUS CHOROU ! ! ! (Racionais Mc's - Jesus Chorou)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

DESVAIRADAS CONTRADIÇÕES


Meu nome é Mark Val. Sou usuário de drogas a mais de vinte anos. Sempre me condenam pela minha falta de coragem e vontade. Mas não entendo muito algumas atitudes contraditórias. Meu tio é engenheiro civil, já construiu projetos gigantescos e mora em uma pequena casa de apenas dois quartos, sala, cozinha, banheiro e um cachorro pulguento. Minha tia é cabeleireira e tem um cabelo de dar medo. Meu pai é pintor e até hoje não terminou de pintar a nossa casa. Minha mãe é costureira e vive andando com roupas rasgadas. Meu irmão é uma “bicha” e só anda com mulher gostosa. Minha irmã diz que é virgem e só falta voar de tão mentirosa.

Muitas coisas me confundem a cabeça. Claro que aquele pozinho branco ajuda, mas nada que se compare ao êxtase. Sinto-me como uma borboleta em busca de um nariz perfeito para pousar. Não ria! É verdade! Ontem eu fui acender um cigarro de maconha de origem marroquina e queimei a sobrancelha. Ficou um cheiro horrível. Sabe como é. Tudo bem, a vida continua, só o cigarrinho do capeta que acabou. Não faz mal, outros chegarão em breve. Não sei se isso é bom ou ruim.

Hoje eu estava sentado, bem confortável, numa poltrona reclinável de couro preto e descobri a minha verdadeira missão na terra. Comer todas as batatas fritas do Mc`Donalds. Ridículo, porém, delicioso. Diante da descoberta pedi dois Bic Mac`s para matar a larica. Termo muito utilizado no meu ramo de atuação quando acontece um evento com nosso corpo chamado, fome. Saciada a lara, fui repousar um pouco. Deitei-me sobre a rede no jardim e dormi por aproximadamente duas horas. Sonhei que o Al Pacino estava me seguindo e queria me matar, pois o Wesley Snipes estava devendo uma grana para ele e eu era a ponte entre os dois. De repente a Eva Green sentada num café a beira da avenida Paulista acenava com as mãos em minha direção. Corri ao seu encontro de imediato. Ao atravessar a pista não percebi a aproximação de um caminhão tanque.

Acordei gritando, enquanto meu supervisor me dava tapas na cara para que eu acordasse. Abri os olhos e a minha primeira visão foi o Sr. Malcon me olhando espantado. Parecia ter visto a ressurreição do Saddam Hussein. Esbravejou e voltou para dentro do laboratório. Não entendo essas atitudes contrárias. Sou provador de drogas ilícitas a duas décadas do laboratório de narcóticos do Instituto N.O.I.A.S – até hoje não sei o significado desta sigla – e jamais havia experimentado algo tão revolucionário até aquele momento. Uma droga chamada “Você”.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

TIRO ERRADO...!


Diante de uma Bienal conturbada, próspera de desgostos e principalmente inerte sobre o olhar artístico nacional, o público tornou-se apenas números, os artistas expositores coadjuvantes e os protagonistas foram Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen, curadores da 28ª edição da Bienal de Arte de São Paulo. Durante a quarentena que perdurou entre os dias 26 de outubro e 06 de novembro, aconteceu de tudo, porém, para muitos, nada.


Com a intenção de proporcionar aos visitantes um ambiente de discussão e interação social entre o artista e seu receptor, o que se viu estampado nos jornais e revistas de todo o país, foram à decepção diante dos acontecimentos e a decepção diante dos não acontecimentos artísticos. O peixe necessita da água para sobreviver, assim como a Bienal necessita da arte para não morrer, essa foi a principal comparação feita pelos meios de comunicação sobre o que se passava nos grandes salões brancos do Ibirapuera.


Quando os papeis de um grandioso evento são invertidos, entende-se que houve uma pré-disposição para isso acontecer. Nada surge do nada. Diversas reuniões são feitas com equipes e interessados no projeto, para tudo sair conforme o esperado. Pensar em uma discussão sobre a arte contemporânea, dentro de um espaço voltado para a arte contemporânea causa atrito, desconforto, quando a própria arte não esta em foco.


Talvez os curadores da 28ª Bienal de Arte de São Paulo estivessem passando por um período de pulsação freudiana, o qual nos remete ao surgimento de diferentes sensações em uma fase de interesse individual mútuo. O espaço que era para ser da arte tornou-se comum, no sentido mais perturbador da palavra. Uma Bienal transformada em um ciclo de palestras e descontentamento.


Protestos da classe artística, prisão polêmica, performances entorpecidas pela síndrome de Big Brother, apenas aparecer, tudo muito distante do objetivo. Artistas como Rosângela Rennó em entrevista citaram a Bienal como um “episódio melancólico”. Para Paula Pasta, “nesta bienal sobrou discurso”, tornando-se uma “chatice”.


Com o título “Eu vivo contato”, faltou o contato com a arte e sobrou contato com o simples. O cotidiano é visto todo o dia de forma cega relatou impecavelmente o prêmio Nobel de literatura José Saramago, em Ensaio Sobre a Cegueira. Segundo os curadores esse foi um evento pensado para uma “Bienal estratégica”, com espaço para o discurso. Talvez daqui a dois anos o nome passe para “Bienal do Discurso de São Paulo”.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

MUDAR OU NÃO MUDAR, EIS A QUESTÃO!


Observe os pássaros em frente a sua casa. Para onde eles vão e porque eles voltam? Mudanças são sempre bem vindas em nossas vidas. Sejam elas boas ou ruins, todas mudam algo ou alguém. Mudar para muitos significa emagrecer. Para outros apenas pensar. Mudar causa arrepio em alguns e contentamento em outros. Todos mudam e todos sabem para onde querem ir, só não sabem se irão chegar. Os pássaros continuam a mudar. Migram de uma região a outra no aviso singelo da natureza e nem ao menos parecem perguntar para onde estão se movendo. Compreender a exatidão da palavra mudar parece-me insensatez, vulgar de mais e interesse de menos.


Mudar pode ser simplesmente transferir-se de um lugar para outro, trocar de vida. Aquela vida da qual você parece não querer mais viver. Daquelas pessoas das quais você não quer mais conviver. Daquela janela da qual você não quer mais olhar. Daquela rua que você não quer mais passar. Apenas isso é suficiente para mudar? Quem sabe mudar faz apenas você sentir-se útil, onipotente. “Eu mudei”. Mudou nada. Você será sempre a mesma pessoa, o que mudará, será apenas a convivência, a linguagem. A insatisfação diante da mudança continua. O tempo irá passar e você desejará outra mudança. “Não aquento mais...!” Mas quem aquenta? Apenas suportamos pacientemente o final da rua chegar, o dia se acabar para pedirmos novamente que ele se acabe. A carne é fraca e o pensamento é vulnerável.


As memórias do passado só valem naquela mesa de bar para surpreender a pessoa desejada. Contando histórias alucinantes vividas – pensa você – só por você. No livro “A Carne de René”, de Virgilio Piñera, René pede a seu pai que não lhe mate e seu pai responde: “Não serei eu quem afundará o punhal no seu peito, meu filho, mas pense que no mundo há milhões de mãos e milhões de punhais”. Portanto, é ingênuo pensar que tudo mudará como em um passe de mágica, assim vivido pela pequena Alice. Mudar é apenas transferir seus olhos de um lugar comum para outro lugar comum. À distância em todo caso é insignificante, ela é medida pela sua euforia. Então mude, seja de lugar, de opinião, de profissão, de mulher, de homem, de e-mail, de música, de cabelo, de tatuagem, de endereço, de nome, de roupa, de vocabulário, de candidato, de prato... Mude e perceberá que serás sempre o mesmo.