terça-feira, 15 de setembro de 2009

A ÚLTIMA CRÔNICA


Fernando Sabino

"A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso."



Crônica publicada no livro "A Companheira de viagem" (Editora Record, 1965)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Ainda Não Entendi



Uma sensação de desconforto apertava meu peito. A visão parecia embaçar após cada passo. Podia sentir pessoas me tocando. Cinco ou seis mãos, não sei exatamente. Meu corpo esfriava e minhas pernas tremiam como uma cigarra a ponto de explodir. Barulhos de carros e gritos ecoavam dentro da minha cabeça. O aperto era geral. Minha carcaça não correspondia minhas vontades. Queria sair daquele lugar correndo.


Senti algo me cortar. O sangue saiu quente como lava escorrendo sobre as minhas costas. Os gritos aumentavam e minha paciência diminuía. “Quero sair daqui”, pensava a todo o tempo. Era só questão de ocasião queria eu acreditar. O frio aumentava junto com meus passos apresados. Começo a correr. Tropeço em algo e o gosto do cimento entrando em minha boca é certeiro. Desabo como um camicase japonês sobre terreno árduo. Pessoas ao meu redor sussurram em tom de preocupação.


Um velho, acabado para ser mais exato. Sua pele se parecia com a maldade transformada em matéria. A outra, uma mulher jovem de pele branca e cabelos pretos. Comum para os meus padrões. O rapaz negro de camisa branca parecia o mais sensato naquele instante. Também me observava. Tentei sorrir. Tentei chorar. Estava sem controle dos meus anseios. Será que posso gritar? Perguntei-me. Tentei e nada. Droga o que faço?


Minha paciência já havia se tornado pó. Meu coração batia no compasso de uma escola de samba em plena Marquês de Sapucaí avisando a todo instante. “Acalme-se ou paramos por aqui”. Então resolvo dormir um pouco, descansar. Adivinha? Não consigo. Estou tão ligado que nada me satisfaz. Devagar vou apoiando minhas mãos onde posso e me levanto lentamente.


A parede crespa de cimento mal acabado parecia não terminar. Enfim consigo me levantar. Minhas pernas tremem enquanto meus olhos se abrem. Olho para trás e me suspreendo com o que vejo. Dezenas de homens vestidos de preto e cobertos dos pés a cabeça apontam suas armas na minha direção. Não reajo. Volto minha atenção para a parede e procuro entender onde estou e porque.


Apenas uma imagem me aparece em mente. Eva Green sorrindo e seu corpo de pele branca e seios tão belos que me causaram exitação em meio a tanto desespero. Caralho! O que faço? Não consigo correr. Muito menos pular esse muro. Gritos pedem para que eu vire. Viro devagar. O pedido agora é para eu ajoelhar. Fico puto por um instante, pois demorei tanto para levantar. Ouço o gatilho das armas e ajelho imediatamente.


O som de tiros ecoa naquele espaço público o qual não fazia ideia de onde era. A sensação de frescor percorre meu corpo inundado de medo. Levanto rapidamente e ando em direção aos homens e suas armas. Mais tiros. Mais frescor. Mais medo. Desabo. Não mais como um camicase, mas sim, como uma enorme árvore centenária em seus últimos instantes de vida. Neste momento o meu desejo é apenas um verbo futuro. Entender.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Ainda é tempo...!


por: Rafael Costa



O tempo não é só o tempo passando e dizendo a você cada passo a ser dado em sua vida. O tempo é a única maneira do homem descobrir quanto tempo falta para tentar ficar com mais tempo. Mais tempo para viajar, mais tempo para a família, mais tempo para o cachorro. O tempo não te faz ser mais ou menos apressado, o tempo apenas te antecipa ou te reduz. O tempo não colhe frutos verdes. O tempo não sente a dor do coração. O tempo é apenas tempo.

Tempo é a harmonia entre o acaso e a semelhança. É a vida dizendo a você. Corra! Pare! O tempo é solitário. É tímido, incapaz de machucar. O tempo esconde-se atrás da montanha de pedidos involuntários entregues a ele pela paciência. O tempo não acaba. Não começa. O tempo se dissolve nas falas humanas do cárcere cerebral. O tempo é tudo que você ainda não teve e tudo que você tem. O tempo é você. O tempo sou eu.

O tempo corre em nossas veias. Clareia nossa visão. Esconde nossos defeitos. Demonstra nossas qualidades. O tempo nos adormece. O tempo é apenas passar o tempo. Jogar bola com amigos. Namorar. O tempo é pai, é mãe. O tempo fortalece os fracos. Oprime os fortes. Julga os corretos e castiga os devassos. O tempo nos ensina a viver. O tempo mata. O tempo está sempre no seu devido tempo. O tempo nos reconhece. Ainda é tempo...!

segunda-feira, 16 de março de 2009

Sonhar Não Custa Nada


Do outro lado da rua o prédio de dois andares parecia abandonado. No topo um grande vitral com figuras geométricas coloridas acolhia a sujeira da vida moderna. Abaixo, uma ampla marquise sustentava estátuas de anjos. A pintura mostrava claramente a passagem do tempo sobre aquelas paredes casadas com grandes molduras. As janelas pareciam gritar aos ventos para serem abertas. A enorme porta entreaberta dominava aquele que a olhasse por mais de vinte segundos. A pequena escada transformada em dormitório trazia o cheiro inesperado da aflição. Um convite ao medo.
A porta é empurrada e o barulho da madeira apoiada por dobradiças enferrujadas causa arrepios. Cada passo é dado com muito cuidado. Um a um. A luz é pouca, apesar do sol forte lá fora. À direita cadeiras entulhadas formavam um emaranhado de ferro e tecido vermelho. À esquerda roupas rasgadas e sapatos apodrecidos. Mais abaixo, alguns manequins jogados choravam sugestivamente a falta dos braços e pernas.
De repente algumas luzes vindas de cima se acendem, o palco fica visível, permitindo visualizar a figura desenhada na grande cortina de veludo verde. Um pássaro de corpo e de asa, com cabeça de gato. Não se parecia com os anjos da marquise. O som forte anunciava o começo de alguma coisa, ou o fim de alguém. Mais luzes, mais som. A cortina se abre. Meu corpo fica inerte ao ver o que havia atrás das cortinas.
Um bebê, uma criança de cinco anos, uma de dez, um adolescente de quinze e um jovem de vinte. Todos parados, em silêncio. Cada um com uma rosa na mão direita. Apenas o bebê tinha a rosa ao seu lado, dentro do cesto onde estava deitado. Mal o ar chegava aos meus pulmões. A respiração tornava-se cada vez mais difícil. Uma voz feminina convida para subir ao palco. O convite é irrecusável.
No primeiro passo rumo ao palco as luzes se apagam. Apenas vultos são perceptíveis aos olhos arregalados pelo suspense do futuro próximo. A voz indica para ficar ao lado do jovem de vinte anos. As luzes voltam a se acenderem, enquanto espelhos aparecem a nossa frente. Viro o olhar para a direita e me vejo refletido no espelho da criança de cinco anos. Os espelhos se quebram e os cacos de vidros voam para trás. As cortinas se fecham e a escuridão retorna. Tento, mas não é possível me movimentar.
Lágrimas de angústia escorrem sobre o meu rosto incrédulo diante dos acontecimentos. Sinto uma mão tocar-me. Macia e delicada ela percorre meu pescoço descendo sobre o meu peito. Não vejo a dona daquela mão, mas percebo se tratar de uma mulher belíssima. Sua mão volta sobre o meu peito, passa sobre o meu rosto, parando nos meus olhos. O cheiro indescritivelmente perfeito daquela pele me acalma. A voz sussurra em meu ouvido afirmando que minha vida a ela pertence. Não consigo negar.
Não sei quanto tempo passou, porém, ao abrir meus olhos me deparo com um enorme vitral de figuras geométricas brilhante como um diamante. Percebo que não toco o chão e ao olhar para baixo me surpreendo com a altura. Estou acima das pessoas circulando sobre a calçada e elas nem ao menos me olham. A voz feminina me salda com um agradável, “seja bem vindo”. Não entendo nada e o meu rosto se transforma em um grande ponto de interrogação.
De repente uma voz infantil grita em minha direção. “Aniel! Aniel!”. Viro para trás e a surpresa é grande. Um anjo voa a minha frente sinalizando com as mãos para as minhas costas. Mais uma surpresa. Compreendo o sinal e verifico. Duas asas me sustentam no ar. Naquele momento entendo o que me tornei. As pessoas andando, dirigindo seus carros, todas parecem freneticamente hipnotizadas pela ganância. Desço até a porta do prédio, ela abre sem o meu toque. Entro e pouso sobre um tapete vermelho. O lugar está lotado. Todas as cadeiras ocupadas por pessoas falando sem parar. O barulho é irritante. Penso comigo para que todas fiquem quietas. Como em um passe de mágica, todas se calam. Fico surpreso, porém, satisfeito. A cortina do palco se abre e começa um colorido espetáculo de crianças. Muitas luzes, muitas cores fortes enchem o teatro de alegria e diversão.
Assisto a tudo sem piscar os olhos, atônito. Começo a andar lentamente entre as inúmeras fileiras de cadeiras. Reparo em cada sorriso da platéia como uma águia em sua presa. Dentre tantos sorrir, um me causa fascínio imediato. Era ela, bela e feliz. De olhos grandes e rosto largo. De pele branca e cabelos loiros. Atração deveria ser o seu nome. Não podia me aproximar mais. Tinha medo de ser visto. Agachei-me ali mesmo a espera do fim da apresentação. Duas horas se passaram. Três horas e nada. O cansaço consumia meu corpo. Não resisto e adormeço.
Acordo deitado em um degrau sujo, o cheiro é insuportável. Esfrego os olhos e reconheço aquela escadaria. Olho para cima e reconheço aquela marquise. O alivio é inevitável. Estou em casa. Levanto e vou procurar algo para comer. Percebo que ainda é cedo. Vou até o bar de sempre e peço um pão ao balconista. Nada consigo. Vou a uma padaria e consigo uma fatia de pão com manteiga de uma senhora. Não me contento. Vou até a barraca de café da Tia Eliza e além do seu ótimo humor, ganho um copo de café e um pedaço de bolo de chocolate. Caminho de volta para o meu lar observando o movimento daquela manhã aumentar a cada instante. Passo em frente à loja de doces e vejo meu reflexo na vitrine. Paro e penso. Quem sou eu? Não consigo responder a minha indagação. Será que sou alguém? Não sei. Apenas sei não existir. Entendo a vida como rojões brilhando no céu escuro da virada de calendário, pois são meus únicos momentos de alegria durante todo o ano. Nos demais dias apenas corro e fujo. Corro atrás da sobrevivência e fujo da miséria. Nunca alcancei nada e muito menos consegui fugir. Neste meu mundo apenas consigo sonhar. Por isso, vou voltar a dormir. Quem sabe aquele lindo rosto reaparece, para que o seu sorriso alegre a minha existência.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Darwin, neoliberalismo e o fim da história


Por Emerson Souza Gomes - emerson@puglieseegomes.com.br

A seleção natural de Darwin afirma, dentre outras, que os seres que melhor se adaptam ao meio, prosperam, enquanto que os menos aptos, sucumbem. Trata-se assim de um processo que tem o seu desenvolvimento desde os tempos decanos da história até os dias presentes, e que frutifica numa evolução constante das espécies. Por certo, pode-se afirmar que qualquer interferência que não seja da própria natureza, tende a abortar a evolução, o melhoramento. Bem, pode o leitor questionar: O que tem haver uma coisa com a outra? O que há na filosofia política do neoliberalismo que se relacione com Darwin, com a natureza, com evolução e com o fim da história?


Antes de tudo (antes de falar de neoliberalismo), para que não sejamos alvo de preconceito e do medo que a verdade impõe a alguns, é bom fixar com clareza hialina que devemos invariavelmente desconfiar de qualquer discurso antiindividualista. Devemos desconfiar do signo do banquinho e da locução do líder que remete: Meu povo, meu povo, meu povo!!! Sabemos que nem sempre onde há fumaça, há fogo e esta acepção coletiva da cidadania foi utilizada enormemente pelos regimes mais vis, mais totalitários, que de forma abrupta cercearam a liberdade em todos as suas flexões (e.v. nazismo, fascismo).


A despeito disso, Marx na sua letra científica enunciou que os animais precisam concorrer pois o consumo dos recursos naturais por uns pode ameaçar a sobrevivência de outros. Os seres humanos: não. Estes produzem, e se produzem até mesmo com excesso (com lucro) podem produzir coletivamente assegurando não só a sobrevivência de todos, mas a insubmissão de uns a outros. Fato é que toda doutrina coletiva acaba no final na música do mamute, posto que na história o preço mais caro da liberdade foi a vida e mesmo assim foi um preço justo. Afora Darwin, Marx e mais um turbilhão de ideólogos, políticos, cientistas, economistas e sociólogos que a humanidade revela hodiernamente, quero fazer uma pequena alusão ao cinema e sobre o que podemos entender como o fim de uma estória, como o real the end.


Dizer que "Casablanca" e "E o Vento Levou" terminaram com o the end expresso na tela de nada vale como fim, a não ser como um sinal de que devemos ir da sala às nossas casas, posto que tristeza (como disse Vinícius) não tem fim, porém erra o poeta, ao afirmar que felicidade sim. O final feliz do cinema somente exprime uma continuidade do bem, da felicidade eterna e inconcebível. Tanto no final triste como no happy end a história não chega ao seu termo, significando exclusivamente que para nós (seres bípedes, emotivos e pensadores) o sumo bem ou o mal subreptício, não merece a nossa audiência por muito tempo. Aceitamos no máximo o serialismo da teledramaturgia que nos conta sempre as mesmas estórias, os mesmos dramas, aventuras, romances, de formas artificiais (culturais), mas que nem por isso implicam numa estória de fim. Fica assim a interrogação: Qual é o fim real da estória? A inteligência de Shakespeare matou os protagonistas da sua mais ilustre: Romeu e Julieta, fazendo com que pensemos ser o fim da estória, mesmo, o fim da própria existência. Entretanto, a genialidade do autor para o fim apocalíptico, foi tão grande que Romeu e Julieta continuam ainda hoje morrendo eternamente (tal qual o Cristo na cruz), nas suas várias revisitações no teatro, na tv, no cinema, e nos remakes vários, e esta estória, senhores!, não tem fim.


Voltemos agora ao neoliberalismo e pensemos ele como darwiniano, onde a livre concorrência é uma lei econômica que provê os organismos de eficiência e de qualidade, onde a globalização (arrostada no sentido strito e atual: econômico), vem propugnando uma desfronteirização e com ela uma desnacionalização tal qual a do signo primitivo do homem saindo das cavernas, onde se antes para este as fronteiras eram apenas as naturais, hoje, para o homem moderno, o são tão somente econômicas e algumas fundamentalistas. Pensemos na exclusão do Estado que mais e mais deixa de ser um provedor do bem comum para apenas regular, espectar a ordem econômica, e atuar paliativamente na ordem social. Mais que isto, pensemos que o Estado intervém na economia quando legisla. Quando legisla positivamente direitos sociais e lembremos da livre negociação, da flexibilização das leis do trabalho, da reforma previdenciária; de que o Estado não pode intervir, posto que é anti-econômico (ou anti-natural) Decerto, fica aqui a incógnita: Isto é bom ou mal? Isto gerará evolução ou melhor, desenvolvimento?


Para uma sociedade transformista que precisa modificar sua realidade ou talvez antes unificar todas as realidades sociais de um pai-contraste chamado Brasil; que pugna por Justiça Social através de um direito feito exclusivamente pela maioria (e isto é uma tarefa hercúlea: cada cabeça, um voto. O Direito é o da maioria, mas a Justiça tem que ser para todos, afora o fato que os poderes do Estado mais se apresentam como caixa de ressonância de um poder exógeno, minoritário, e apátrida); onde o pluralismo é a pedra de roseta para se eliminar os apontamentos covardes, discriminatórios e preconceituosos que pesam em berço esplêndido sobre as minorias ou talvez sobre as maiorias minoritárias (negros, colonos, miseráveis); sermos darwinianos, hoje, é racional?...."No fundo todos somos liberais, pois amamos a liberdade, mas queremos para esta liberdade, democracia. Uma democracia social, humanizante, dignificante".


Por último, cabe novamente voltarmos ao cinema e concluirmos (como já anotado) que estória não tem fim, mas história, sim... e talvez este seja apenas um, o seu próprio começo, tal qual o reverso do mito ancestral, o do homem da caverna que sai para viver em sociedade, ... talvez façamos o caminho inverso: Voltemos pós-darwinianos para o seio da nossa escura, úmida e solitária caverna, desterrada caverna ... extremamente individualizados, medrados e violentos e aqui, infelizmente, não posso terminar esta estória! com um ponto final e sim com outra interrogação: "- Chegamos ao fim da história?"

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009




As pessoas que acompanham o “Sente-se por favor”, perceberam que publico capas de filmes como sugestão e principalmente como referencia ao tema abordado. Seja ele ficcional ou factual. Sendo assim, todas as capas são selecionadas após a escrita da crônica e não posterior, para não perder o foco do objeto. Tantas leituras e escritas me deram um senso de direção importante, o qual tento fazer de minhas crônicas uma conversa de bar. Um encontro no supermercado.
Estou a dias pensando em como escrever sobre a corrupção, tentando encontrar uma maneira de não parecer simplório, não deixar o meu senso-comum falar enquanto escrevo. Mas está difícil - a corrupção rebaixa nosso palavreado quando pensamos nela - e, perante esta dificuldade encontrei uma antiga crônica a qual eu havia escrito há alguns anos atrás, sobre a deputada federal Ângela Guadagnin (PT-SP), e sua dança canalha. A foto abaixo vai refrescar suas memórias.








“Quem dança seus males espanta (ou não)”

por: Rafael Costa

Dançar. “Movimentar o corpo seguindo o ritmo musical”. Esta era a descrição do verbo dançar até o dia 23 de março de 2006, quando uma deputada federal resolveu reinventar o movimento corporal acompanhado por sons. Agora não mais é preciso haver música para dançar. A impunidade tornou-se canção para os ouvidos de seres como a “deputada dançarina” fazer da câmara o seu salão de festas e de seus nobres companheiros de profissão, felizes admiradores do rebolado infame.
A harmonização começa com um discurso veemente, seguido de um refrão de votos proveitosos, tendo como melodia a corrupção política. Proponho de imediato a criação de uma nova banda. Seus integrantes terão salários exorbitantes, regalias e patrocínio oficial do Governo Federal. A câmara dos deputados será palco dos seus maiores espetáculos. Estive até pensando em convidar a respeitada deputada para participar do Festival de Dança de Joinville. Concorrendo na categoria “desprezível” e apresentando sua coreografia, “O povo que se dane”.
A população brasileira não merece tamanho desrespeito e humilhação. Nada justifica a ação da deputada. Contudo, justificará a reação da opinião pública, ou seja, sua comemoração será vossa sentença. Infelizmente não acredito em qualquer punição para a “bailarina petista”. Acredito apenas na indignação nacional, no ditado “aqui se faz, aqui se paga”. A urna será seu caixão para o funeral de sua morte política.


Obs: Ângela Guadagnin tentou a reeleição, mas seu saracotear não foi aceito pelo eleitorado paulista.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

DOENÇA CRÔNICA


Tenho lido muitas crônicas ultimamente e percebi algumas similaridades em textos de autores tão distintos. Distintos no sentido da regionalidade, mas iguais nas coesões textuais. Claro! Você vai dizer. “São crônicas seu idiota”. Eu sei deste pormenor desde o momento em que começo até o término de cada texto. Só não entendo porque a maioria trata das mazelas de suas cidades como um romance de verão.
Crônica não é apenas frases irônicas criadas pelo olhar singular do autor. Crônica é alma. É perversão transformada em palavras por mãos sádicas. Crônica é cabeça de cobra com corpo de tigre. É rival da malandragem e parceira da ingenuidade. Poucos sabem fazer crônicas, muitos pensam fazer crônicas e a maioria apenas narra um passeio no parque do qual observou aquela criança albina, de pele transparente e boné estranho correndo em direção a sua mãe, enquanto outras crianças zoam com a sua cor pálida. Qualquer ser alfabetizado sabe descrever com muito humor, como é cagar e não ter papel higiênico no banheiro para se limpar.
Agora você vai dizer: “Quem é você pra dizer isso e baseado em que?”. Muito prazer, Rafael Costa, casado, tio e favorável ao não-comodismo. Digo tudo isso com base na leitura de crônicas inférteis. Talvez esta seja uma, pois escrevendo dessa maneira arrogante o símbolo da indiferença apareça a sua frente neste momento, seguido da frase. “Que otário”. Diante das palavras acima não se enquadram Machado de Assis, Rubem Braga, Elsie Lessa, Fernando Sabino, Arnaldo Jabor, entre outros mestres que fazem da crônica uma doença crônica. Não quero causar inimizades, muito menos discutir o certo do errado ou qual o cor do coelho da Mônica. Quero apenas o reconhecimento antes de saberem que vou viver por muito tempo.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

CONFLITO + TOLICE = MORTES


Soberano é o homem diante de todas as coisas. Inteligente, viril e acima de tudo articulador. Detentor de recordes estabelecidos por ele mesmo. Espaço nunca foi um problema. Temos muitas terras a serem exploradas. Temos muitas águas a serem consumidas. Temos muita comida a ser ingerida. Devemos dividir em partes – sejam elas iguais – ou não. Devemos pensar no próximo para que o próximo possa pensar. Ingênuo engano. Em qual mundo você nasceu?

Eu nasci na Terra. Suja de sangue. Histórias para contar são muitas, para esquecer são poucas. Quer ler uma? Era uma vez, um homem de bigode estranho e cabelo lambido. Sua face representava o poder sobre os fracos de alma, corpo e mente. Multidões o aplaudiam, e multidões o temiam. Os dois lados eram fracos, somente o homem de bigode estranho e cabelo lambido sabia o que era certo para os aplausos e os temerosos. Os anos se passaram e poucos aplausos e temores sobraram a ele. Restou apenas a solidão da morte para quem sabe reencontrar suas multidões.

Pelejas gratuitas e fora de qualquer contexto social, político e religioso transformam a vida de muitos em pouco importantes. Pouco interessantes. Escrevo em vermelho pelo sangue que escorre em minhas veias, pelo sangue que jorra de pessoas simples, pelo sangue que abençoa o terror. Guerras inúteis, aparências do medo e da ilusão pelo poder. Forçam suas mentes em busca do prestígio, da realização material e se esquecem de que um dia terão o mundo aos seus pés. Contudo, suas mãos estarão livres para fazer o que nunca ou poucas fizeram de coração aberto, rezar.

Rafael Costa

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

"JESUS CHOROU"



O texto abaixo é o início da música "Jesus Chorou" dos Racionais Mc`s. Vale a pena relfetir, vale a pena entender...


Felis Natal e um 2009 cheio de realizações!





"O que é o que é??Clara e salgada, cabe em um olho e pesa uma tonelada...tem sabor de mar,pode ser discreta, inquilina da dor, morada predileta....na calada ela vem, refém da vingança, irmã do desespero, rival da esperança... pode ser causada por vermes e mundanas...e o espinho da flor, cruel que vc ama, amante do drama, vem pra minha cama, por querer, sem me perguntar me fez sofrer...e eu que me julguei forte...e eu que me senti...serei um fraco, quando outras delas vir..se o barato é louco e o processo é lento...no momento...deixa eu caminhar contra o vento...o que adianta eu ser durão e o coração ser vulnerável...o vento não, ele é suave, mas é frio e implacável....(é quente) borrou a letra triste do poeta (só) .....correu no rosto pardo do profeta...verme sai da reta...a lágrima de um homem vai cair...esse é o seu B.O. pra eternidade...diz que homem não chora...tá bom, falou...não vai pra grupo irmão ai .... JESUS CHOROU ! ! ! (Racionais Mc's - Jesus Chorou)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

DESVAIRADAS CONTRADIÇÕES


Meu nome é Mark Val. Sou usuário de drogas a mais de vinte anos. Sempre me condenam pela minha falta de coragem e vontade. Mas não entendo muito algumas atitudes contraditórias. Meu tio é engenheiro civil, já construiu projetos gigantescos e mora em uma pequena casa de apenas dois quartos, sala, cozinha, banheiro e um cachorro pulguento. Minha tia é cabeleireira e tem um cabelo de dar medo. Meu pai é pintor e até hoje não terminou de pintar a nossa casa. Minha mãe é costureira e vive andando com roupas rasgadas. Meu irmão é uma “bicha” e só anda com mulher gostosa. Minha irmã diz que é virgem e só falta voar de tão mentirosa.

Muitas coisas me confundem a cabeça. Claro que aquele pozinho branco ajuda, mas nada que se compare ao êxtase. Sinto-me como uma borboleta em busca de um nariz perfeito para pousar. Não ria! É verdade! Ontem eu fui acender um cigarro de maconha de origem marroquina e queimei a sobrancelha. Ficou um cheiro horrível. Sabe como é. Tudo bem, a vida continua, só o cigarrinho do capeta que acabou. Não faz mal, outros chegarão em breve. Não sei se isso é bom ou ruim.

Hoje eu estava sentado, bem confortável, numa poltrona reclinável de couro preto e descobri a minha verdadeira missão na terra. Comer todas as batatas fritas do Mc`Donalds. Ridículo, porém, delicioso. Diante da descoberta pedi dois Bic Mac`s para matar a larica. Termo muito utilizado no meu ramo de atuação quando acontece um evento com nosso corpo chamado, fome. Saciada a lara, fui repousar um pouco. Deitei-me sobre a rede no jardim e dormi por aproximadamente duas horas. Sonhei que o Al Pacino estava me seguindo e queria me matar, pois o Wesley Snipes estava devendo uma grana para ele e eu era a ponte entre os dois. De repente a Eva Green sentada num café a beira da avenida Paulista acenava com as mãos em minha direção. Corri ao seu encontro de imediato. Ao atravessar a pista não percebi a aproximação de um caminhão tanque.

Acordei gritando, enquanto meu supervisor me dava tapas na cara para que eu acordasse. Abri os olhos e a minha primeira visão foi o Sr. Malcon me olhando espantado. Parecia ter visto a ressurreição do Saddam Hussein. Esbravejou e voltou para dentro do laboratório. Não entendo essas atitudes contrárias. Sou provador de drogas ilícitas a duas décadas do laboratório de narcóticos do Instituto N.O.I.A.S – até hoje não sei o significado desta sigla – e jamais havia experimentado algo tão revolucionário até aquele momento. Uma droga chamada “Você”.