quarta-feira, 14 de abril de 2010

Santa Ingenuidade, rogai por nós...!


Hoje é dia 02 de abril de 2010. Sexta-feira Santa. Dia de peregrinações e tantas outras demonstrações de fé para com a história de dor e sofrimento descrita na bíblia, sobre um homem chamado Jesus Cristo (ou como preferir), que foi julgado, condenado, martirizado, morto e sepultado. Já no primeiro domingo após esta data ficou determinado à comemoração da Páscoa. Pois bem! Nada de carne vermelha. A picanha fica ‘proibida’. Somente bacalhau.

Diante destes fatos religiosos em que convivo anualmente, desde minha infância percebo que de nada vale cada gesto oferecido aos pés das inúmeras estátuas de Cristo, pelo nosso imenso Brasil de maioria católica. E neste momento generalizo, colocando neste balaio até mesmo pessoas do meu convívio, pois para os moldes conscientes dos brasileiros do século XXI, Jesus Cristo seria um ser ingênuo. Talvez o tenham tratado desta maneira a dois mil e dez anos atrás. Mas como poderia um homem aceitar sua penitencia e percorrer um longo caminho, carregando o peso de uma enorme cruz em suas costas aos gritos de soldados insolentes municiados por seus chicotes, sem o menor pudor em usá-lo no corpo daquele pobre homem. Tenho certeza que a maioria gritaria em seus ouvidos: “Justiça, justiça...!”

Não faço tal discurso como descrente ou qualquer outro sinônimo, e sim, como exímio observador que sou. Jesus Cristo seria sim descrito em jornais, revistas, conversas de bar e salões de beleza como ingênuo. Como poderia Ele perceber que não é culpado pelos seus atos mentirosos? Como poderia Ele deixar crucificá-lo? O júri popular seria sua melhor condenação. Caso o soltassem no meio do povo, certamente seria linchado até a morte. Se Ele ressuscitasse após três dias, talvez até o perdoassem.


Nietzsche escreveu certa vez: “Há uma exuberância na bondade que parece ser maldade”. Talvez isso defina porque não sabemos quem somos e porque continuamos aos olhos dos outros, ingênuos perante o mau-caratismo alheio. Falha moral ou apenas reflexo histórico? Acho que Jean Jaques Rousseau já tinha a resposta: “O povo, por ele próprio, quer sempre o bem, mas, por ele próprio, nem sempre o conhece”.


Apesar de tudo e todos, continuarei a minha peregrinação à realização e reconhecimento ingênuo diante dos desinteressados pelo bem estar coletivo. Sempre tentando não cometer falácias e quem sabe tomando algumas multas de trânsito. Porque observei uma coisa convivendo comigo mesmo. Quando pensar que estou certo, terei certeza do meu erro. Sempre convivendo com seres inteligentemente humanos. Uns juntando inimigos outros juntando dinheiro. Guerreiro de fé. Desculpe! Esqueci de me apresentar. Muito prazer Mammon!

segunda-feira, 5 de abril de 2010


Será que a leitura dos jornais nos torna estúpidos?


Rubem Alves


O nome não me era estranho. Eu já o vira de relance em algum jornal ou revista. Mas não me interessei. Aquele nome, para mim, não passava de um bolso vazio. Eu não tinha a menor idéia do que havia dentro dele. Sou seletivo em minhas leituras. Leio gastronomicamente. Diante de jornais e revistas eu me comporto da mesma forma como me comporto diante de uma mesa de bufê: provo, rejeito muito, escolho poucas coisas. Concordo com Zaratustra: “Mastigar e digerir tudo - essa é uma maneira suína.


“Aquele bolso devia estar cheio de coisas dignas de serem comidas – caso contrário não teria sido oferecido como banquete nas páginas amarelas da VEJA. Mas eu não comi. Aí um amigo me enviou via e-mail cópia de uma crônica do Arnaldo Jabor, a propósito do dito nome – crônica que eu li e gostei: sou amante de pimentas e jilós.


Senti-me parecido com o Mr. Gardner, do filme “Muito além do jardim“, com Peter Sellers. Mr. Gardner jamais lia jornais e revistas. Aproximei-me então da minha assessora e lhe perguntei, envergonhado, temeroso de que ela tivesse visto o dito filme, e me identificasse com o Mr. Gardner. “Natália, quem é Adriane Galisteu?“ Esse era o nome do bolso vazio. Ela deu uma risadinha e me explicou. À medida em que ela explicava, as coisas que eu havia lido começaram a fazer sentido, e eu me lembrei de uma estória que minha mãe me contava: uma princesinha linda que, quando falava, de sua boca saltavam rãs, sapos, minhocas, cobras e lagartos... Terminada a explicação, fiquei feliz por não ter lido. Lembrei-me de uma advertência de Schopenhauer: “No que se refere a nossas leituras, a arte de não ler é sumamente importante. Essa arte consiste em nem sequer folhear o que ocupa o grande público. Para ler o bom uma condição é não ler o ruim: porque a vida é curta e o tempo e a energia escassos... Muitos eruditos leram até ficar estúpidos.“ Existirá possibilidade de que a leitura dos jornais nos torne estúpidos?


O que está em jogo não é a dita senhora, que pode pensar o que lhe for possível pensar. O que está em jogo é o papel da imprensa. Qual a filosofia que a move ao selecionar comida como essa para ser servida ao povo?


A resposta é a tradicional: “A missão da imprensa é informar“. Pensa-se que, ao informar, a imprensa educa. Falso. Há milhares de coisas acontecendo e seria impossível informar tudo. É preciso escolher. As escolhas que a imprensa faz revelam o que ela pensa do gosto gastronômico dos seus leitores.


Jornais são refeições, bufês de notícias selecionadas segundo um gosto preciso. Se o filósofo alemão Ludwig Feuerbach estava certo ao afirmar que “somos o que comemos“, será forçoso concluir que, ao servir refeições de notícias ao povo os jornais estão realizando uma magia perversa sobre os seus leitores: depois de comer eles serão iguais àquilo que leram.


Faz tempo que parei de ler jornais. Leio, sim, movido pelo espírito da leitura dinâmica, apressadamente, deslizando meus olhos pelas manchetes para saber não o que está acontecendo, mas para ficar a par do menu de conversas estabelecido pelos jornais. Muita coisa importante e deliciosa acontece sem virar notícia, por não combinar com o gosto gastronômico dos leitores. Se não fizer isto ficarei excluído das rodas de conversa, por falta de informações. Parei de ler os jornais, não por não gostar de ler mas precisamente porque gosto de ler. As notícias dos jornais são incompatíveis com meus hábitos gastronômicos: leio bovinamente, vagarosamente, como quem pasta... ruminando. O prazer da leitura, para mim, está não naquilo que leio mas naquilo que faço com aquilo que leio. Ler, só ler, é parar de pensar. É pensar os pensamentos de outros. E quem fica o tempo todo pensando o pensamento de outros acaba por desaprender a arte de pensar seus próprios pensamentos: outra lição de Schopenhauer. Pensar não é ter as informações. Pensar é o que se faz com as informações. É dançar com o pensamento, apoiando os pés no texto lido: é isso que me dá prazer. Suspeito que a leitura meticulosa e detalhada das informações tenha, freqüentemente, a função de tornar desnecessário o pensamento. Pensar os próprios pensamentos pode ser dolorido. Quem não sabe dançar corre sempre o perigo de escorregar e cair... Assim, ao se entupir de notícias – como o comilão grosseiro que se entope de comida – o leitor se livra do trabalho de pensar.


Confesso que não sei o que fazer com a maioria das notícias dos jornais: entendo as palavras mas não entendo a notícia. Penso: se eu não entendo a notícia que leio, o que acontecerá com o “povão“? Outras notícias só fazem explicitar o que já se sabe. Detalhes, cada vez mais minuciosos, das tramóias políticas e econômicas de um Maluf, de um Jader, nada acrescentam ao já sabido. Esse gosto pela minúcia escabrosa se deriva da pornografia, que encontra seus prazeres na contemplação dos detalhes sórdidos, que são sempre os mesmos, como o comprovam as salas de “imagens eróticas“ da Internet. A dita reportagem sobre a tal senhora e as notícias sobre Jader e Maluf atendem às mesmas preferências gastronômicas. Será que as notícias são selecionadas para dar prazer aos gostos suinos da alma? Por outro lado, há os suplementos culturais que, para serem entendidos, é preciso ter doutoramento. Para o povão, o futebol...


Ao final de sua crônica o Arnaldo Jabor dá um grito: “Os órgãos de imprensa devem ter um papel transformador na sociedade...“ Dizendo do meu jeito: os órgãos de imprensa têm de contribuir para a educação do povo. Mas educar não é informar. Educar é ensinar a pensar. Os jornais ensinam a pensar? Repito a pergunta: Será que a leitura dos jornais nos torna estúpidos?


(Folha de S. Paulo, Tendências e Debates, 02/09/2001.)

segunda-feira, 29 de março de 2010

Não poderia deixar de escrever pelo menos um pequeno parágrafo sobre Armando Nogueira por dois simples motivos: Crônica e Futebol. Duas paixões em comum, pois foi dos inúmeros textos por ele escrito que me inspiro tão sobriamente. Às vezes nem tanto. Só posso dizer: Adeus!


Pelada de Subúrbio

Armando Nogueira

Nova Iguaçu, quatro horas da tarde, sábado de sol. Dois times suam a alma numa pelada barulhenta; o campo em que correm os dois times abre-se como um clarão de barro vermelho cercado por uma ponte velha, um matagal e uma chácara silenciosa, de muros altos.
A bola, das brancas, é nova e rola como um presente a encher o grande vazio de vidas tão humildes que, formalmente divididas, na verdade, juntam-se para conquistar a liberdade na abstração de uma vitória.
Um chute errado manda a bola, pelos ares, lá nos limites da chácara, de onde é devolvida, sem demora, por um arremesso misterioso. Alguns minutos mais tarde, outra vez a bola foi cair nos terrenos da chácara, de onde voltou lançada com as duas mãos por um velhinho com jeito de caseiro.
Na terceira, a bola ficou por lá; ou melhor, veio mas, cinco minutos depois, embaixo do braço de um homem gordo, cabeludo, vestido numa calça de pijama e nu da cintura para cima. Era o dono da chácara.
A rapaziada, meio assustada, ficou na defensiva, olhando: ele entrou, foi andando para o centro do campo, pôs a bola no chão e, quando os dois times ameaçavam agradecer, com palmas e risos, o gesto do vizinho generoso, o homem tirou da cintura um revólver e disparou seis tiros na bola.
No campo, invadido pela sombra da morte, só ficou a bola, murcha.

domingo, 28 de março de 2010

Dai-me Paciência!


Em muitos momentos de nossa vida somos testados a encarar situações de extremo estresse, raiva, vontade de mandar o próximo à merda. Diante disso, respiramos fundo, nos acalmamos e saímos como verdadeiros reis e rainhas da tal, situação contrária. Talvez isso esteja ligado à passividade. Aquela que exercemos diariamente na fila do banco, no ônibus lotado, no mau atendimento público e privado e em tantas outras ocasiões de desgaste.


Paciência para uma mulher pode ser a resposta para aguentar os nove meses de gestação. Para um homem a quarentena após o nascimento do seu fruto. Para um louco, paciência pode ser apenas a compreensão estranha. Para mim paciência é aturar a falta de respeito. Principalmente a minha e a das pessoas ao meu redor.


Como sempre digo, não sou exemplo para ninguém, mas tenho certeza da minha resignação. Uma pessoa com doença grave, sabendo que o fim pode chegar, só pode tratar de seu mal e ter paciência. Corremos tanto atrás de algo no dia a dia, que não sabemos mais curtir a vida na companhia das pessoas, sejam elas minimalistas ou não. Pouco importa. Queremos apenas nos relacionar com pessoas de interesse profissional. Aquelas que nos acrescentem mais valias. Foda-se! Desculpe, perdi a paciência.


A Bíblia diz em Hebreus 6:12 “Para que não vos tornei indolentes, mas sejais imitadores dos que pela fé e paciência herdam as promessas.” Fé! Muitas vezes é a fé que nos fortalece. Em qualquer domínio religioso. A escolha é nossa. “Aqueles que são pacientes herdarão o que lhes foi prometido.” Eu prometo ser paciente.


Para alguns vários funcionários públicos, paciência é apenas um jogo no computador de pouca serventia. Pois tente pedir alguma informação e será hostilizado pela pátria amada. Que por acaso tem em sua primeira estrofe do Hino Nacional a seguinte frase: “OUVIRAM DO IPIRANGA AS MARGENS PLÁCIDAS”. Plácidas: Calmas, tranguilas. Foda-se! Desculpe, perdi a paciência de novo.


Dentre as sete virtudes (Castidade, Generosidade, Temperança, Diligência, Caridade e Humildade), a mais difícil de desenvolver é a paciência. Quem diga aqueles com processos estagnados em todas as esferas judiciais do país onde a justiça tarda, mas não falha. Parece piada. Pois como já dizia Lenine: “Enquanto todo mundo; Espera a cura do mal; E a loucura finge; Que isso tudo é normal; Eu finjo ter paciência...”

quinta-feira, 25 de março de 2010


Recentemente em conversas com amigos e via e-mail recebi sugestões sobre o que eu poderia escrever. Tinha de tudo. Humor, política, sexo, mulher – repare que as duas últimas são sinônimos – homem, futebol, dinheiro – repare que os três últimos também são sinônimos. Mas como fui e continuo um jovem “aborrecente” (assim dizia Mamãe), não aceitei nenhuma das implicações. Vou escrever sobre trânsito, veículos e seus condutores.

Em 2008 foi aprovada pelo Congresso a lei seca. Lei esta, criada com a intenção de punir severamente, condutores de veículos automotores que tenham ingerido quantidade excessiva de álcool. Só que...!



“Levantamento realizado na Justiça estadual do país inteiro mostra que 80% dos motoristas que se recusaram a se submeter ao teste do bafômetro ou a tirar sangue para a verificação do grau etílico acabaram absolvidos por falta de provas. O levantamento foi preparado pelo advogado Aldo de Campos Costa, doutorando pela Universidade de Barcelona --para onde os dados foram enviados na semana passada. Ele foi realizado na segunda instância de todos os tribunais de Justiça do país entre os meses de junho de 2008 e maio de 2009. Foram encontradas 159 decisões em tribunais de todas as regiões do país --em 97% houve entendimento unânime.A pesquisa se refere à infração penal, e não a punições administrativas que são aplicadas pela autoridade de trânsito.”
(Folha On-Line, 07/09/2009)


A lei seca prevê pena de três meses a seis anos de detenção, além de multa de R$ 955,00 e suspensão do direito de dirigir por um ano para quem for pego encachaçado. Só que...! (Novamente). A lei muito bem escrita por nossos congressistas e judiciários abre caminho para a impunidade. Acredito que seja uma questão de costume dos nossos representantes e também da nossa conivência ao volante. Não podemos tirar o nosso da reta. Muitas vezes somos tão devassos quanto os donos do circo Capital.

Com a importância que se formou em torno de se ter um carro para ir trabalha e tantas outras coisas mais, foi deixado de lado à gravidade que se deve ter ao dirigir. Quando em 1885 o alemão Karl Benz resolveu produzir o primeiro veículo motorizado para fins comerciais, não imaginou qual seria o resultado. Algum tempo depois os carros começariam a ser produzidos em série graças ao visionário Henry Ford.

O problema foi que esqueceram de ensinar como usar o equipamento corretamente. O tempo passou e ainda não aprendemos como nos comportar no trânsito. Alguns entram em seus automóveis e pensam estar numa cápsula ou armadura revestida de coragem. Outros parecem estar sozinhos no mundo. Mais um tanto esquece que o carro foi feito para andar.

Não sou exemplo pra ninguém, mas quando estou na boleia faço o possível para chegar ao meu destino com sucesso e preservar a vida de quem me acompanha. Nossos caminhoneiros são o retrato das más estatísticas, que não valem a pena citar aqui. Juntamente com estradas ruins, péssima sinalização e pedágios abusivos. Ingredientes perfeitos para alimentar ainda mais a ignorância dos motoristas brasileiros.

As vendas de carros batem recordes ano a ano. E a qualidade das auto escolas? Melhor perguntar ao sistema falido de ciretrans, detrans e afins, espalhados por todo o país. Como tudo nesta imensa nação paciente, nada se cumpre. Nem por direito, nem por obrigação. Somente para arrecadar valores descomedidos e usá-los de maneira no mínimo duvidosas.

Está semana foi anunciada pela PRF a publicação no Diário Oficial da União de milhares de infrações cometidas nos últimos cinco anos e não quitadas. Será mais uma maneira de arrecadar dinheiro ou a correta “cobrança” pelo pagamento de quem infringiu as leis de trânsito? Eu penso que todos devem pagar por suas autuações, pois devem cumprir com as penas previstas em lei e utilizarem deste artifício para cobrar mais responsabilidade e atenção dos donos do circo Capital.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Remédio Para a Alma


Sim. Não me faça chorar por você. Minha coragem por ti é tão grande quanto a minha vontade de fugir. Ontem quando te encontrei pela terceira vez, pude perceber o valor da vida. O custo de um coração disparado. O sentido de direção mais indicado para se ter uma razoável passagem pelo globo que nos consome tão lentamente.
Deveríamos viver tempo suficiente para entender momentos como o de agora. Ver você e sentir a presença da existência. Perceber o quanto sou grato por isso. A partir deste instante nada mais será como antes, acho que até o passado se transformará. Quem nasceu até este crucial momento sentiu o frescor do desejo passar na ponta do seu nariz achando que era apenas a brisa do entardecer.
Minhas pretensões para com o restante de sua vivência será devastador como um tornado passando sobre a cidade das ilusões. Nada mais terá começo, meio e fim. Tudo se acaba por aqui e renasce uma nova era. Seremos como a terra à espera de água, para fazer brotar deste chão exclusivamente sorrisos....

Toc, toc, toc!
- Quem é?
- Sou eu...!
- Entre, está aberta!
- O que está fazendo?
- Tentando ultrapassar a fronteira entre a culpa e o medo.
- Tenho um bom remédio para isso...!
- Sei!
- É verdade. Já experimentei!
- Então fala qual é...!
- Quanto tem de dinheiro ai?
- Não sei, acho que uns 300 reais.
- Ótimo, me dá aqui que vou comprar o medicamento e te trago rapidinho!
- Legal, mas não demora. Tenho uma reunião em duas horas.
- Deixa comigo, não vai se arrepender...! (gargalhada)

Uma hora depois.

- Não bate mais na porta?
- Desculpe, estou me sentindo mais poderoso.
- E posso saber porquê?
- Trouxe o seu remédio.
- Ótimo, me de que preciso ir tomar banho...!
- Aqui está...!

O barulho do tiro ecoou pelo apartamento sombrio do 20º andar. Não demorou muito para que o sangue escorregasse sobre o a assoalho desgastado. A paz foi renovada naquele ambiente poeirento. Contudo, os gritos da vizinhança formavam ruídos de alerta. Algo estava errado, mas ninguém se prontificou a entrar até a chegada da polícia. A porta foi aberta e o silêncio voltou a imperar. Passo a passo adentravam rumo ao desconhecido. O anuncio é feito. Suicídio.
O corpo é retirado e levado ao IML. O legista o examina e determina o motivo da morte: Homem, caucasiano, sem fraturas ou lesões por briga. Morreu com um tiro certeiro na cabeça. O coração e pulmões estavam dilatados o que sugere morte por causas desconhecidas, pois estes órgãos se alargam apenas quando a vítima sofre de dúvida seguida por medo. Portanto, a causa especifica da morte é Súcubo (Espírito feminino que pelas noites vem copular com um homem, perturbando-lhe o sono).

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010


Meu nome é Geyse. Sou filha de uma pátria amada silva silva e de um governo alcoólatra. Cresci aprendendo que só teria futuro entrando na faculdade, mas seria muito difícil penetrar na vida burguesa do país tropical. Então comecei minha jornada estudando em escolas públicas cheias de paredes pichadas, cadeiras, mesas, lousas e armários quebrados. Professores despreparados e má alimentação.
Apesar dos percalços consegui terminar o segundo grau. Não me pergunte como. Eu também não sei. O interessante deste trajeto foi que durante minha jornada estudantil-adolescente-rebelde, o sindico do condomínio, mais conhecido como FHC, liberou o acesso às faculdades particulares. Fazendo com que a minha geração tivesse entrada tranquila em qualquer faculdade-shopping.
A minha admissão no vestibular foi incrível. Escrevi uma redação sobre o que eu achava de um assunto que eu não fazia ideia e para a minha surpresa, o meu nome estava na lista de aprovados. Fiquei tipo assim, mega feliz. Agora me tornaria uma turista. Acho que é assim que chamam quem faz faculdade de turismo. O importante é que vou conhecer um monte de gatinho.
O primeiro dia de aula foi lindo. Coloquei a minha melhor roupa e fui arrasar. Quando entrei na faculdade e segui em direção a sala de aula me senti na passarela do São Paulo Fashion Week. Passo a passo subi a rampa da minha realização. Obrigada sindico! Farei o possível para ser uma “boa” aluna. Darei o meu melhor para que meus pais se orgulhem de mim. O tempo passou e fui fazendo várias amizades. Conheci muita gente interessante que gostava de pagode.
Hoje vou para a balada depois da aula e já vou preparada. Vou vestir aquele meu vestido arrasa-quarteirão. Vou fazer uma bela maquiagem e deixar queixos derrubados por onde eu passar.
Entro na faculdade e vou subindo a rampa em direção à sala de aula. Começo a ouvir assovios e vozes em minha direção: “Gostosa”, “Piranha...!" No começo não entendi e entrei na sala. Sentei e esperei o tempo passar até chegar à hora da balada. Quer saber, vou ao banheiro. Levantei e fui feliz e sorridente ajeitar a minha maquiagem. Cabelo, olhos, boca, tudo impecável. Vou nessa! Voltar para a aula. Não me pergunte do quê.

Sai do banheiro e deparei com um monte de gente me olhando feito urubu procurando carniça. Não entendi de inicio, mas logo compreendi. “Vaca”, “Vagabunda”, “Piranha”, “Feia”. Era isso que gritavam nas minhas lindas orelhas, aquele acervo de homens loucos para tirarem meu luminoso vestido. Como podem ser tão grosseiros com uma dama “como eu”.
Consegui chegar até a sala, mas de nada adiantou. A gritaria continuava do lado de fora junto com os tapas na porta. Comecei a ficar assustada com tamanho alvoroço. Então meu professor resolveu chamar a polícia e ficamos presos ali até que as autoridades chegassem. Coloquei o avental do professor e sai envolta de três policias direto para a delegacia. Dois dias se passaram até que o primeiro jornalista me procurou. Não entendi. Só então me disseram que o vídeo estava rolando na net. Nossa, eu estava famosa.
Diversas redes de televisão, revistas, jornais me procuravam diariamente para saber mais sobre o que tinha acontecido. Não pensei duas vezes, agarrei a oportunidade e fui ao máximo de programas possíveis. Falei, chorei e até vesti novamente o meu luminoso vestido. Adoooooooro!
Recebi diversos convites e virei notícia até no fantástico. Estava linda. Passado alguns meses já fiz “lipo”, dei um trato no cabelo, mudei o figurino e agora sou uma celebridade. Linda e poderosa. Quem mandou me expulsarem. Eu poderia ser a garota-propaganda da faculdade. Tenho até o slogan: “Faça como eu, encurte o seu futuro, venha para a Unibam”. Enquanto falo essa frase, mostro o meu brilhante vestido. Mas tudo bem, agora sou uma mulher de prestígio. Adooooooro!
Esses dias eu estava na sala de espera da minha massoterapeuta e comecei a ler o jornal, então li uma notícia sobre a morte de um estudante lá em Pernambuco. Dizia que ele era estudante de medicina na Federal e que haviam atirado nele por engano. Vi a foto dele e até achei o neguinho bonitinho. Pena que ele não sobreviveu para ficar famoso “como eu”.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

CONLUIO ou sem LULA



Muitas vezes o mundo parece conspirar contra nós. Acordamos, escovamos os dentes, tomamos café, pensamos nos afazeres e seguimos com destino ao futuro incerto. Durante algum tempo mínimo esquecemos quem somos e porque todos os nossos movimentos acontecem. Encontramos pessoas, o telefone toca, falamos, resolvemos situações e nos sentimos úteis. Simplesmente pra nada. Apenas entramos na dança da vida comum. Tão comum que voltamos a pensar na falta do que nos falta.


Nada disso é uma alto afirmação ou uma descrição do que penso ou sinto. É apenas a visão externa de um homem perseguindo seu acaso e descobrindo o contemporâneo. Talvez por isso não consiga entender meus próprios anseios. Sou apenas um sonhador sem compostura pelo arame que ganho. Meus desejos são apenas meus desejos. Tão comum quanto a frauda suja de um recém-nascido.


Chico Buarque cantou em Copo Vazio de Gilberto Gil: “É sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar”. Isso seria apenas palavras ao vento, se elas tivessem saído da boca de um bêbado encostado sobre o balcão imundo de um bar numa esquina qualquer pedindo mais um pouco de cachaça. Mas, não. Os meus bocejos avisam que não. Neste momento presente, sou eu quem escreve e você quem lê. Nada mudará isso. Somente a vivência sabe ensinar aos seres humanos - quando chegarem próximos ao fim de suas vidas - quanto tempo ele perdeu com medo da morte. A idade será esquecida e a vida já terá passado. Diante de tudo isso pensei em como eu poderia mudar o mundo.


Primeiramente acabaria com a CIA, a ONU, o PT, o MST, o PMDB, a Al Kaeda, o Taliban, a camisinha, Brasília (não é o carro), a ignorância, o casamento, a Coca-Cola, o pernilongo, o cigarro, os senadores (mundialmente falando), a tristeza, o comum, o diferente, o carnaval, o silicone, o brega e a preguiça. Em segundo eu fundaria o B.A.R. Sigla sem definição nenhuma para o óbvio. Em terceiro eu aumentaria o número de mulheres. Apenas por uma questão de sobrevivência.


Obrigaria todo ser pensante a ler no mínimo dois livros por mês. Acabaria com os livros de alto-ajuda aumentando conseqüentemente a inteligência particular de cada um. Cobraria uma taxa para que nenhuma taxa fosse cobrada. Proibiria qualquer tipo de vestimenta. Construiria casas em frente ao mar para todos. Menos para aqueles contra as minhas ideias. Costumam chamar esse tipo de atitude de política. Descordo.


Pensei em chamar o Dr. Bacamarte para internar alguns ministros de estados, autoridades de todos os níveis. Públicas ou privadas. Já que para ele tudo e todos eram sinônimo de doidice. O problema será quando ele descobrir que o louco é ele, pois é assim que me sinto morando no país da maquiavelice administrativa. Normal.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

SAGACIDADE (FINAL)


- Você tem razão! Sussurra Casio enquanto levanta a cabeça.
- Como assim? Do que está falando?
- Olhe pra mim. Sou tão pouco vaidoso. Vou me casar com uma mulher que não conheço e nem ao menos sinto atração. Durante esses dois anos que estou junto dela apenas a vesti como meu melhor par de tênis. Nunca pensei em como seria nosso futuro. Nunca pensei nela enquanto assistia a um pôr-do-sol sozinho. Sempre pensei em alguém como você. E o que me desperta dessa farsa é um sonoro “e daí”.
- O que está tentando me dizer Casio?
- Que sou água e você a cachoeira.
- Continuo sem entender.
- Preste atenção. Olhe bem pra mim. O que você vê?
- Vejo inteligência!
- Como acha que me sinto ouvindo isso de quem acabou de me conhecer?
- Feliz!?

O sorriso de Casio surgiu em seu rosto parecendo uma onda nascendo em algum lugar de qualquer oceano. O mesmo acontece com Amy. Suas mãos se tocam novamente. A cobiça por cada corpo transforma o ambiente no paraíso da luxuria.

- Deixe-me ser você? Pergunta Amy a poucos centímetros da orelha de Casio com a voz de uma rainha.
- Você já é eu! Neste momento o amor é como uma prisão. Trava-te por dentro e fecha todos os seus sentimentos. Você só percebe o que fez depois do primeiro castigo que te faz sentir numa solitária. Então o primeiro sentimento é libertado. O arrependimento por ter amado pela primeira vez e esquecido de viver.
- Será que todo começo tem um fim? Será que todo fim termina como começou? Parece que tudo acontece sem percebemos. Fazemos tudo pelo futuro e esquecemos do presente. Não importa se o passado foi bom ou ruim. O importante é que sempre teremos algo para se lembrar!
- Quero me lembrar do seu rosto, da sua pele, do seu beijo, do seu gemido!
- Não vai precisar! Serei sempre sua lembrança mais recente!

O beijo de Amy e Casio faz a vida de qualquer pessoa que o vice parecer nada. O som do encanto entre homem e mulher deixaria qualquer maestro sem saber como reger tamanha manifestação explicita em movimentos maliciosos. O amor já havia tomado seus corpos, pois seus cérebros não os comandavam mais. A perfeita interação entre sonho e realidade ocorreu. Suas vidas já haviam se modificado.

Ao acordar amarrotado no tapete da sala. Casio se levanta deixando Amy ainda sonolenta deitada sobre suas roupas. Percorre a casa e percebe o emudecer dos cômodos. Vasculha a cozinha, os quartos, o quintal, a piscina e não encontra ninguém. Ao voltar para a sala avista um bilhete sobre a mesa:

“Conduzirei a festa até o amanhecer. Quando homens estarão jogados e mulheres desamparadas sem carona para casa. A brisa da manhã anunciará o dia e a maré batendo nas pedras corromperá o silêncio de jovens imaturos sem quaisquer preocupações sobre o que virá a acontecer naquele dia. O sol queimará a areia fofa da praia. Os bares abrirão suas portas e as cortinas dos quartos se fecharão como sinal de luto. Se tudo isso for mentira a vida será uma farsa, mas como tudo é verdade a vida não passa”.

Amy acorda. Olha para Casio parado ao lado da mesa com o pedaço de papel na mão e pergunta espreguiçando-se.

- O amor passou por aqui?

sábado, 31 de outubro de 2009

SAGACIDADE (PARTE 2)


Trêmulo e acima de tudo preocupado com a ocasião que o esperava, Casio se vê acuada na poltrona de couro com saída somente para um lado. Justamente o caminho da bela Amy chegando e sentando no sofá a sua frente.

- Quero pedir desculpas! Diz Amy olhando firme nos olhos de Casio.
- Por que?
- Por sentir desejo...!
- Desejo?
- Você me faz sentir bem, sua presença me deixa tranqüila e ao mesmo tempo desconfortável!
- Não sei o que dizer!
- Não diga nada...!

Neste momento Casio e Amy se tocaram como deficientes visuais reconhecendo uma obra de Aleijadinho. Cada contato entre pele e pele poderia facilmente ser comparado a sublime inocência do primeiro voo de uma borboleta. Seus mundos fundiram. Suas bocas travaram uma guerra entre fúria e carícia. Prazer, somente o prazer os matariam naquele instante.

- Amy! Pare, não podemos fazer isso!
- Devemos!
- Não, não é certo!
- Não estou entendendo...!
- Eu também não!
- Então o que está acontecendo...!
- Vou me casar na semana que vem!
- E daí?
Novamente o silêncio de Casio transborda o ambiente de perguntas sem respostas. Amy começa a rir imaginando qual seria a desculpa do professor para cancelar o casamento já marcado. A certeza de que isso vai acontecer na vida do noivo em perigo é clara na imaginação da ardilosa fisioterapeuta. Casio levanta-se em direção a cozinha deixando Amy com seu lindo sorriso e a cobiça correndo suas veias.
Continua.