terça-feira, 3 de novembro de 2009

SAGACIDADE (FINAL)


- Você tem razão! Sussurra Casio enquanto levanta a cabeça.
- Como assim? Do que está falando?
- Olhe pra mim. Sou tão pouco vaidoso. Vou me casar com uma mulher que não conheço e nem ao menos sinto atração. Durante esses dois anos que estou junto dela apenas a vesti como meu melhor par de tênis. Nunca pensei em como seria nosso futuro. Nunca pensei nela enquanto assistia a um pôr-do-sol sozinho. Sempre pensei em alguém como você. E o que me desperta dessa farsa é um sonoro “e daí”.
- O que está tentando me dizer Casio?
- Que sou água e você a cachoeira.
- Continuo sem entender.
- Preste atenção. Olhe bem pra mim. O que você vê?
- Vejo inteligência!
- Como acha que me sinto ouvindo isso de quem acabou de me conhecer?
- Feliz!?

O sorriso de Casio surgiu em seu rosto parecendo uma onda nascendo em algum lugar de qualquer oceano. O mesmo acontece com Amy. Suas mãos se tocam novamente. A cobiça por cada corpo transforma o ambiente no paraíso da luxuria.

- Deixe-me ser você? Pergunta Amy a poucos centímetros da orelha de Casio com a voz de uma rainha.
- Você já é eu! Neste momento o amor é como uma prisão. Trava-te por dentro e fecha todos os seus sentimentos. Você só percebe o que fez depois do primeiro castigo que te faz sentir numa solitária. Então o primeiro sentimento é libertado. O arrependimento por ter amado pela primeira vez e esquecido de viver.
- Será que todo começo tem um fim? Será que todo fim termina como começou? Parece que tudo acontece sem percebemos. Fazemos tudo pelo futuro e esquecemos do presente. Não importa se o passado foi bom ou ruim. O importante é que sempre teremos algo para se lembrar!
- Quero me lembrar do seu rosto, da sua pele, do seu beijo, do seu gemido!
- Não vai precisar! Serei sempre sua lembrança mais recente!

O beijo de Amy e Casio faz a vida de qualquer pessoa que o vice parecer nada. O som do encanto entre homem e mulher deixaria qualquer maestro sem saber como reger tamanha manifestação explicita em movimentos maliciosos. O amor já havia tomado seus corpos, pois seus cérebros não os comandavam mais. A perfeita interação entre sonho e realidade ocorreu. Suas vidas já haviam se modificado.

Ao acordar amarrotado no tapete da sala. Casio se levanta deixando Amy ainda sonolenta deitada sobre suas roupas. Percorre a casa e percebe o emudecer dos cômodos. Vasculha a cozinha, os quartos, o quintal, a piscina e não encontra ninguém. Ao voltar para a sala avista um bilhete sobre a mesa:

“Conduzirei a festa até o amanhecer. Quando homens estarão jogados e mulheres desamparadas sem carona para casa. A brisa da manhã anunciará o dia e a maré batendo nas pedras corromperá o silêncio de jovens imaturos sem quaisquer preocupações sobre o que virá a acontecer naquele dia. O sol queimará a areia fofa da praia. Os bares abrirão suas portas e as cortinas dos quartos se fecharão como sinal de luto. Se tudo isso for mentira a vida será uma farsa, mas como tudo é verdade a vida não passa”.

Amy acorda. Olha para Casio parado ao lado da mesa com o pedaço de papel na mão e pergunta espreguiçando-se.

- O amor passou por aqui?

sábado, 31 de outubro de 2009

SAGACIDADE (PARTE 2)


Trêmulo e acima de tudo preocupado com a ocasião que o esperava, Casio se vê acuada na poltrona de couro com saída somente para um lado. Justamente o caminho da bela Amy chegando e sentando no sofá a sua frente.

- Quero pedir desculpas! Diz Amy olhando firme nos olhos de Casio.
- Por que?
- Por sentir desejo...!
- Desejo?
- Você me faz sentir bem, sua presença me deixa tranqüila e ao mesmo tempo desconfortável!
- Não sei o que dizer!
- Não diga nada...!

Neste momento Casio e Amy se tocaram como deficientes visuais reconhecendo uma obra de Aleijadinho. Cada contato entre pele e pele poderia facilmente ser comparado a sublime inocência do primeiro voo de uma borboleta. Seus mundos fundiram. Suas bocas travaram uma guerra entre fúria e carícia. Prazer, somente o prazer os matariam naquele instante.

- Amy! Pare, não podemos fazer isso!
- Devemos!
- Não, não é certo!
- Não estou entendendo...!
- Eu também não!
- Então o que está acontecendo...!
- Vou me casar na semana que vem!
- E daí?
Novamente o silêncio de Casio transborda o ambiente de perguntas sem respostas. Amy começa a rir imaginando qual seria a desculpa do professor para cancelar o casamento já marcado. A certeza de que isso vai acontecer na vida do noivo em perigo é clara na imaginação da ardilosa fisioterapeuta. Casio levanta-se em direção a cozinha deixando Amy com seu lindo sorriso e a cobiça correndo suas veias.
Continua.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

SAGACIDADE


A festa estava ótima. Vozes ecoavam no ar e despertavam a atenção da vizinhança. Todos estavam felizes por existirem naquele instante de contentamento. Nada poderia se igualar ao momento de reunião entre amigos que há algum período não se olhavam com tempo necessário. Juntos poderiam morrer após se despedirem para voltarem as suas casas. A satisfação e o prazer os tinham dominados.
Dentre tantos seres contentes presentes no espaço público entre a piscina e a churrasqueira, uma mulher se destacava. Sua pele brilhava, seus olhos falavam: “toque-me”. Sua voz excitava até os mais tímidos. A perfeita composição humana estava na frente de Casio. Nada o faria mudar de julgamento sobre tal ser. Seu nome. Amy.
O jovem Casio pensa em como se aproximar da beleza enquanto conversa amenidades com seus amigos. As vozes das pessoas mais pareciam ruídos entrando como faca no ouvido quase surdo do atento professor de geografia. Amy não o conhecia. Muito menos aparentava ter percebido sua presença acanhada. O professor pouco falava na agitada roda de moços maníacos por uma fêmea como a linda fisioterapeuta.
As horas passavam e a vontade de Casio em prendê-la em seus braços aumentava. Um conglomerado de machos já havia tentado alguma aproximação com a garota de voz forte e pernas torneadas. Nenhum obteve êxito, mas a queriam. Todos desejavam tocar os seios da exuberante Amy, mas somente um teria seu desejo realizado. Por um instante Casio sai para buscar mais bebida dentro da casa e sem esperar esbarra com a sua mitologia na porta da cozinha.

- Me desculpe!
- Tudo bem, não foi nada. Já nos conhecemos? Pergunta Amy.
O silêncio de Casio avisa que não.
- Muito prazer, Amy!
- Ca...! Casio!
- Você está bem? Parece tenso!
- Estou bem...!
- Ótimo! Você poderia me ajudar com estas bebidas?
- Claro!
- Seus olhos são verdes?
- São...!
- Parecem refletir seus desejos.
Novamente o silêncio domina Casio.
- Posso te dizer uma coisa?
- Sim!
- Seu rosto me excita!
- Como assim? Diz Casio incrédulo com a citação.
- Deixa pra lá...!

Amy pega algumas bebidas, desvia de Casio e volta para junto de suas amigas. Pasmo, Casio tenta entender aquela frase. “Seu rosto me excita”. Sem coragem para voltar ao lugar de onde pensa nunca deveria ter saído, o professor acomoda-se na poltrona da sala parecendo um velho aposentado enquanto assiste seu programa de TV favorito. Seu mundo parou de girar, apenas a voz do seu pensamento o devora.
Pouco tempo depois uma sombra se aproxima e Casio tenta manter a serenidade. Era ela. Linda e fogosa. Pronta para se entregar ao professor e fazer daquela noite a mistura perfeita entre anseio e gozo. Entre poder e apoderado. Entre um e outro. Suas vidas começariam ali e somente a correta atitude de Casio faria com que eles tivessem algo para terminar.
Continua.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

E ASSIM - NÃO - CAMINHA A HUMANIDADE


Sexta-feira e o fim de semana se aproxima com um feriado de brinde na segunda. Chego em casa, coloco o lixo para fora, faço bagunça com as minhas duas cadelas de estimação. Arrumo uma coisa aqui, outra ali e resolvo esticar o corpo no sofá da sala. Espero minha cara metade chegar do trabalho para tomarmos um café e conversar. Levanto-me e vou fumar um cigarro na varanda enquanto a chuva fina e chata cai sobre o jardim.
Minha esposa chega e decide fazer uma pizza. Sentamos para comer e começa o jornal na TV. A partir deste instante surge a minha surpresa. “Barack Obama ganha Nobel da Paz”. Fico boquiaberto com a notícia e tendo entender o motivo de tamanha consideração para com o presidente estadunidense. Seria porque ele conseguiu a paz entre os estilistas de todo o mundo, ávidos por vestir a primeira dama? Acredito que não.
De acordo com a vontade de Alfred Nobel, criador do tão cobiçado título, o prêmio deveria distinguir "a pessoa que tivesse feito a maior ou melhor ação pela fraternidade entre as nações, pela abolição e redução dos esforços de guerra e pela manutenção e promoção de tratados de paz". Então vamos por parte. Obama está em seu atual cargo a – apenas - 9 meses e já tirou até férias. Maravilha! Após sua memorável eleição em 2008, muitos temiam por sua inexperiência, mas o apoiavam. Pouco tempo se passou e a única ação realmente salvadora de Obama, foi entregar aos bancos norte-americanos bilhões de dólares dos cofres públicos, afim de, minimizar a crise econômica e sinceramente, não vejo nenhuma relação deste ato com a palavra paz.
No dia seguinte fui ao cinema muito bem acompanhado, para assistir o filme de Quentin Tarantino, sobre um grupo de judeus-norte-americanos assassinos de alemães no Terceiro Reich. Até ai tudo bem. É apenas um filme. O meu descontentamento aconteceu quando o primeiro trailler foi anunciado. A atriz dizia: “Meu filho vai se chamar Luiz Inácio”. A reação das poucas pessoas presentes na sala foi hilária. Enquanto alguns riam ironicamente – como eu – outros apenas balançavam a cabeça em sinal de aversão.
É nisso que da um presidente inexperiente americano chamar o presidente inábil brasileiro de “o cara”. O que acontece no mundo hoje é a aceitação de uma democracia mentirosa. Voltada para a aceitação de ícones como é o caso de Lula e Obama. Os povos das duas nações não votaram por um país justo e libertário. Votaram em seus marqueteiros. Votaram nas únicas opções das quais ainda não haviam dado consagro de confiança. Votaram em personagens que no caso do Lula tem o maior orçamento do cinema brasileiro. Fico imaginando quanto custará o filme de Obama. Vou sugerir ao parlamento norueguês e a academia sueca, instituições que decidem os ganhadores dos prêmios Nobel a criação do “Nobel do Desengano”. O povo brasileiro será um forte concorrente.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

PERGUNTAS E RESPOSTAS


Há algum tempo tenho recebido perguntas no mínimo curiosas de amigos. Perguntas essas que me deixaram algumas noites em claro e sem saber exatamente onde eles queriam chegar com tamanha divagação. Uma das questões foi se eu me lembrava da última vez em que dei risada de verdade. Aquela risada que nos faz chorar (oxímoro). Pensei no momento, mas não consegui responder de prontidão. Então numa dessas noites tentei me lembrar e adivinha o que aconteceu. Dei risada sozinho, até chorar. Ai me lembrei. Essa foi a última vez que sorri tanto.

Outra pergunta foi de quem seria o Pedro Parente. Sinceramente. Não sei, mas acredito que ele seja parente próximo de Dom Corleone e está no Brasil disfarçado de ex-ministro-chefe da casa civil. Contudo, ainda suspeito que ele tenha tentáculos na grande mídia do sul tupiniquim. Mas são apenas suspeitas. Isso tudo me leva a crer que Pedro Parente é realmente irmão da putrefação que devasta nosso grandioso florão da América. Agora, se isso for verdade, a estirpe é grande.

A pergunta seguinte foi a mais audaciosa que eu poderia responder. A quem o Sepúlveda Pertence? Quase entrei em estado de choque. Minhas pupilas se dilataram e comecei a tremer. Olhava-me no espelho e apenas assistia o meu rosto se transformar em fragmentos se espalhando pelo azulejo ao fundo. Mas fui forte e consegui descobrir a resposta. Sepúlveda Pertence à classe dos vermes, mais especificamente da categoria José Sarney, pois causa mal-estar, dor de cabeça, vertigem e principalmente, é um, PA-RA-SI-TA. E como bom verme que é também causa um sintoma já muito conhecido pela maioria da população brasileira, a coceira anal. Pode parecer bizarro, mas é a realidade. Após cada eleição já dizia o meu inteligentíssimo pai, “Pau no c... do povo”.

Espero que as interrogações estejam respondidas a altura de seus questionadores.

Aquele abraço.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

PURO MACHISMO


Em alguns momentos sentar para escrever parece tão cruel quanto cortar os pulsos - apesar de nunca ter feito isso. A vida passa na mente poluída pelo cotidiano e nada surge. Nada mesmo. Parece que o famoso branco torna-se cinza e vai ficando preto. A cabeça dói, as penas se mexem involuntariamente no ritmo da impaciência. Os dedos tocam o teclado como um garoto de quinze anos prestes a perder a virgindade com a prima mais velha e não sabe por onde começar a tocá-la.
Poder-me-ia dizer sobre a política brasileira, religião, cinema, futebol, roteiro, mulheres...! Boa, vou falar sobre mulheres. Ou melhor, sobre as fêmeas. Aquela que nós homens sempre sonhamos. Solicito apenas para as mulheres, principalmente aquelas que aceitam todas as opiniões da “Liga das Mulheres” (quadro feminista do Fantástico), não se ofendam com o que escreverei de agora em diante, pois eu também não sei quais palavras sairão da minha imaginação masculina.
Oh, não! A primeira palavra que me vem é sexo. Acho que comecei errado. Vou tentar melhorar. Que tal, amor! Ficou melhor. Agora, após me redimir, penso em dinheiro. Quem não gosta? Imagino comprar uma casa, um carro, uma pistola 9mm, um cachorro, um pijama, uma TV de LCD e claro um anel de diamantes. Explico. A casa é para abrigar confortavelmente a fêmea. O carro é para levá-la aos seus mais inusitados destinos de laser e entretenimento. A pistola é para resguardar a sua beleza e integridade. O cachorro é para eu levar a passear e conquistar outras mulheres. O pijama é somente para dormir confortavelmente. A TV é para eu assistir o tricolor paulista ser heptacampeão brasileiro e o anel de diamantes é apenas um sonho. Assim como a mulher perfeita das aspirações masculinas.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

A ÚLTIMA CRÔNICA


Fernando Sabino

"A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso."



Crônica publicada no livro "A Companheira de viagem" (Editora Record, 1965)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Ainda Não Entendi



Uma sensação de desconforto apertava meu peito. A visão parecia embaçar após cada passo. Podia sentir pessoas me tocando. Cinco ou seis mãos, não sei exatamente. Meu corpo esfriava e minhas pernas tremiam como uma cigarra a ponto de explodir. Barulhos de carros e gritos ecoavam dentro da minha cabeça. O aperto era geral. Minha carcaça não correspondia minhas vontades. Queria sair daquele lugar correndo.


Senti algo me cortar. O sangue saiu quente como lava escorrendo sobre as minhas costas. Os gritos aumentavam e minha paciência diminuía. “Quero sair daqui”, pensava a todo o tempo. Era só questão de ocasião queria eu acreditar. O frio aumentava junto com meus passos apresados. Começo a correr. Tropeço em algo e o gosto do cimento entrando em minha boca é certeiro. Desabo como um camicase japonês sobre terreno árduo. Pessoas ao meu redor sussurram em tom de preocupação.


Um velho, acabado para ser mais exato. Sua pele se parecia com a maldade transformada em matéria. A outra, uma mulher jovem de pele branca e cabelos pretos. Comum para os meus padrões. O rapaz negro de camisa branca parecia o mais sensato naquele instante. Também me observava. Tentei sorrir. Tentei chorar. Estava sem controle dos meus anseios. Será que posso gritar? Perguntei-me. Tentei e nada. Droga o que faço?


Minha paciência já havia se tornado pó. Meu coração batia no compasso de uma escola de samba em plena Marquês de Sapucaí avisando a todo instante. “Acalme-se ou paramos por aqui”. Então resolvo dormir um pouco, descansar. Adivinha? Não consigo. Estou tão ligado que nada me satisfaz. Devagar vou apoiando minhas mãos onde posso e me levanto lentamente.


A parede crespa de cimento mal acabado parecia não terminar. Enfim consigo me levantar. Minhas pernas tremem enquanto meus olhos se abrem. Olho para trás e me suspreendo com o que vejo. Dezenas de homens vestidos de preto e cobertos dos pés a cabeça apontam suas armas na minha direção. Não reajo. Volto minha atenção para a parede e procuro entender onde estou e porque.


Apenas uma imagem me aparece em mente. Eva Green sorrindo e seu corpo de pele branca e seios tão belos que me causaram exitação em meio a tanto desespero. Caralho! O que faço? Não consigo correr. Muito menos pular esse muro. Gritos pedem para que eu vire. Viro devagar. O pedido agora é para eu ajoelhar. Fico puto por um instante, pois demorei tanto para levantar. Ouço o gatilho das armas e ajelho imediatamente.


O som de tiros ecoa naquele espaço público o qual não fazia ideia de onde era. A sensação de frescor percorre meu corpo inundado de medo. Levanto rapidamente e ando em direção aos homens e suas armas. Mais tiros. Mais frescor. Mais medo. Desabo. Não mais como um camicase, mas sim, como uma enorme árvore centenária em seus últimos instantes de vida. Neste momento o meu desejo é apenas um verbo futuro. Entender.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Ainda é tempo...!


por: Rafael Costa



O tempo não é só o tempo passando e dizendo a você cada passo a ser dado em sua vida. O tempo é a única maneira do homem descobrir quanto tempo falta para tentar ficar com mais tempo. Mais tempo para viajar, mais tempo para a família, mais tempo para o cachorro. O tempo não te faz ser mais ou menos apressado, o tempo apenas te antecipa ou te reduz. O tempo não colhe frutos verdes. O tempo não sente a dor do coração. O tempo é apenas tempo.

Tempo é a harmonia entre o acaso e a semelhança. É a vida dizendo a você. Corra! Pare! O tempo é solitário. É tímido, incapaz de machucar. O tempo esconde-se atrás da montanha de pedidos involuntários entregues a ele pela paciência. O tempo não acaba. Não começa. O tempo se dissolve nas falas humanas do cárcere cerebral. O tempo é tudo que você ainda não teve e tudo que você tem. O tempo é você. O tempo sou eu.

O tempo corre em nossas veias. Clareia nossa visão. Esconde nossos defeitos. Demonstra nossas qualidades. O tempo nos adormece. O tempo é apenas passar o tempo. Jogar bola com amigos. Namorar. O tempo é pai, é mãe. O tempo fortalece os fracos. Oprime os fortes. Julga os corretos e castiga os devassos. O tempo nos ensina a viver. O tempo mata. O tempo está sempre no seu devido tempo. O tempo nos reconhece. Ainda é tempo...!

segunda-feira, 16 de março de 2009

Sonhar Não Custa Nada


Do outro lado da rua o prédio de dois andares parecia abandonado. No topo um grande vitral com figuras geométricas coloridas acolhia a sujeira da vida moderna. Abaixo, uma ampla marquise sustentava estátuas de anjos. A pintura mostrava claramente a passagem do tempo sobre aquelas paredes casadas com grandes molduras. As janelas pareciam gritar aos ventos para serem abertas. A enorme porta entreaberta dominava aquele que a olhasse por mais de vinte segundos. A pequena escada transformada em dormitório trazia o cheiro inesperado da aflição. Um convite ao medo.
A porta é empurrada e o barulho da madeira apoiada por dobradiças enferrujadas causa arrepios. Cada passo é dado com muito cuidado. Um a um. A luz é pouca, apesar do sol forte lá fora. À direita cadeiras entulhadas formavam um emaranhado de ferro e tecido vermelho. À esquerda roupas rasgadas e sapatos apodrecidos. Mais abaixo, alguns manequins jogados choravam sugestivamente a falta dos braços e pernas.
De repente algumas luzes vindas de cima se acendem, o palco fica visível, permitindo visualizar a figura desenhada na grande cortina de veludo verde. Um pássaro de corpo e de asa, com cabeça de gato. Não se parecia com os anjos da marquise. O som forte anunciava o começo de alguma coisa, ou o fim de alguém. Mais luzes, mais som. A cortina se abre. Meu corpo fica inerte ao ver o que havia atrás das cortinas.
Um bebê, uma criança de cinco anos, uma de dez, um adolescente de quinze e um jovem de vinte. Todos parados, em silêncio. Cada um com uma rosa na mão direita. Apenas o bebê tinha a rosa ao seu lado, dentro do cesto onde estava deitado. Mal o ar chegava aos meus pulmões. A respiração tornava-se cada vez mais difícil. Uma voz feminina convida para subir ao palco. O convite é irrecusável.
No primeiro passo rumo ao palco as luzes se apagam. Apenas vultos são perceptíveis aos olhos arregalados pelo suspense do futuro próximo. A voz indica para ficar ao lado do jovem de vinte anos. As luzes voltam a se acenderem, enquanto espelhos aparecem a nossa frente. Viro o olhar para a direita e me vejo refletido no espelho da criança de cinco anos. Os espelhos se quebram e os cacos de vidros voam para trás. As cortinas se fecham e a escuridão retorna. Tento, mas não é possível me movimentar.
Lágrimas de angústia escorrem sobre o meu rosto incrédulo diante dos acontecimentos. Sinto uma mão tocar-me. Macia e delicada ela percorre meu pescoço descendo sobre o meu peito. Não vejo a dona daquela mão, mas percebo se tratar de uma mulher belíssima. Sua mão volta sobre o meu peito, passa sobre o meu rosto, parando nos meus olhos. O cheiro indescritivelmente perfeito daquela pele me acalma. A voz sussurra em meu ouvido afirmando que minha vida a ela pertence. Não consigo negar.
Não sei quanto tempo passou, porém, ao abrir meus olhos me deparo com um enorme vitral de figuras geométricas brilhante como um diamante. Percebo que não toco o chão e ao olhar para baixo me surpreendo com a altura. Estou acima das pessoas circulando sobre a calçada e elas nem ao menos me olham. A voz feminina me salda com um agradável, “seja bem vindo”. Não entendo nada e o meu rosto se transforma em um grande ponto de interrogação.
De repente uma voz infantil grita em minha direção. “Aniel! Aniel!”. Viro para trás e a surpresa é grande. Um anjo voa a minha frente sinalizando com as mãos para as minhas costas. Mais uma surpresa. Compreendo o sinal e verifico. Duas asas me sustentam no ar. Naquele momento entendo o que me tornei. As pessoas andando, dirigindo seus carros, todas parecem freneticamente hipnotizadas pela ganância. Desço até a porta do prédio, ela abre sem o meu toque. Entro e pouso sobre um tapete vermelho. O lugar está lotado. Todas as cadeiras ocupadas por pessoas falando sem parar. O barulho é irritante. Penso comigo para que todas fiquem quietas. Como em um passe de mágica, todas se calam. Fico surpreso, porém, satisfeito. A cortina do palco se abre e começa um colorido espetáculo de crianças. Muitas luzes, muitas cores fortes enchem o teatro de alegria e diversão.
Assisto a tudo sem piscar os olhos, atônito. Começo a andar lentamente entre as inúmeras fileiras de cadeiras. Reparo em cada sorriso da platéia como uma águia em sua presa. Dentre tantos sorrir, um me causa fascínio imediato. Era ela, bela e feliz. De olhos grandes e rosto largo. De pele branca e cabelos loiros. Atração deveria ser o seu nome. Não podia me aproximar mais. Tinha medo de ser visto. Agachei-me ali mesmo a espera do fim da apresentação. Duas horas se passaram. Três horas e nada. O cansaço consumia meu corpo. Não resisto e adormeço.
Acordo deitado em um degrau sujo, o cheiro é insuportável. Esfrego os olhos e reconheço aquela escadaria. Olho para cima e reconheço aquela marquise. O alivio é inevitável. Estou em casa. Levanto e vou procurar algo para comer. Percebo que ainda é cedo. Vou até o bar de sempre e peço um pão ao balconista. Nada consigo. Vou a uma padaria e consigo uma fatia de pão com manteiga de uma senhora. Não me contento. Vou até a barraca de café da Tia Eliza e além do seu ótimo humor, ganho um copo de café e um pedaço de bolo de chocolate. Caminho de volta para o meu lar observando o movimento daquela manhã aumentar a cada instante. Passo em frente à loja de doces e vejo meu reflexo na vitrine. Paro e penso. Quem sou eu? Não consigo responder a minha indagação. Será que sou alguém? Não sei. Apenas sei não existir. Entendo a vida como rojões brilhando no céu escuro da virada de calendário, pois são meus únicos momentos de alegria durante todo o ano. Nos demais dias apenas corro e fujo. Corro atrás da sobrevivência e fujo da miséria. Nunca alcancei nada e muito menos consegui fugir. Neste meu mundo apenas consigo sonhar. Por isso, vou voltar a dormir. Quem sabe aquele lindo rosto reaparece, para que o seu sorriso alegre a minha existência.