segunda-feira, 16 de julho de 2012

Crônicas de um Tumor (D14)


De encher o coração!
               
Menos uma semana se foi com uma folga merecida das sessões de quimioterapia. Fiz uma aplicação de duas horas apenas na última terça-feira. Talvez por isso esteja me sentido bem melhor e mais disposto. Inclusive, preciso confessar, estou comendo muito. Muito mesmo. Estou com o apetite de dar inveja a qualquer elefante. Pode ser reflexo da primeira semana de quimio, a qual fiquei indisposto e sem vontade de comer. Impressionante como o quadro se reverteu. Tenho apreciado gostos que eu recusava antes, como espinafre, brócolis, beterraba, linhaça e tantos outros. Contudo, também tem os alimentos que tenho evitado principalmente gorduras e frituras.
                Apesar de saber que cada caso é um caso no tratamento de combate ao câncer, indico a todos que estão neste barco a tomarem bastante água e comer, comer mesmo que não sinta vontade ou saiba que poderá descartar (digo vomitar) em seguida. Isso ajudará o corpo a se manter forte por mais que se sinta fraco com a medicação. Alimente-se sempre com frutas frescas e bem lavadas. Pelo que tenho presenciado em meu tratamento, uma boa alimentação é fator indispensável para uma recuperação rápida e de boa qualidade.
                Hoje fui praticar mais um exame de rotina com controle de plaquetas, glóbulos brancos e glóbulos vermelhos para que eu possa fazer mais uma pequena sessão de medicamentos amanhã. Também terei uma nova consulta para saber quais serão os novos procedimentos. Se depender da minha disposição terei alta amanhã mesmo. Mas como não depende, vamos acatar o que o médico mandar fazer e eliminar de uma vez por todas esta pedra no sapato.
                As 7 dicas de hoje para uma vida mais interessante são: 1) Não de ouvidos a quem não te ouve; 2) nunca deixe sua esposa mexer naquela espinha próxima ao seu lábio – dói demais; 3) sempre que puder assista filme legendado; 4) sempre que puder assista filme; 5) aprenda alguma coisa nova, mesmo que você faça esta coisa só uma vez; 6) descanse no domingo pelo menos; 7) e sempre que for alimentar um boi, nunca diga a ele que a sua mãe é uma vaca, porque vaca é a mulher que me deu uma fechada de mestre hoje no trânsito. 
                  
OBS: Me desculpem a grosseria, mas o que esta pessoa fez hoje no trânsito ao sair de uma rua lateral e entrar com tudo na transversal é passível de prisão. Ela poderia ter causado um acidente gravíssimo.   

  
     
                       

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Crônicas de um Tumor (D10)



     
      Boa tarde a todos. Hoje estou aqui te querendo. Não brincadeira, é que acordei engraçadinho esta manhã. Isso deve ser culpa da medicação, mas como dizem as más línguas, desculpa de aleijado é muleta. No meu caso eu sou canceriano mesmo. Tipo um para ser mais exato, não-seminoma, responsável por 0,08% dos tumores que envolvem os homens, mais freqüentes em indivíduos com idade entre 20 e 40 anos. Interessante né? Talvez! Isso vai depender do seu ponto vista, ou melhor, da sua idade.  

      Gostaria de partilhar um pouco das experiências e informações que tem chego a minhas mãos. Muita por sinal. Hoje por exemplo minha esposa me passou um capítulo do livro “Lance Armstrong – Muito Mais Do Que Um Ciclista Campeão”, onde ele conta a descoberta do seu câncer de testículo e alguns poucos dias depois dessa notícia. Identifiquei-me com ele não somente na semelhança patológica, mas no recebimento de tal aviso. No dia que recebi a informação de que eu tinha um tumor, foi como ter saltado de um avião em pleno voo sem pára-quedas e o chão parecia nunca chegar. Foi no dia 8 de março de 2012, Dia Internacional da Mulher. Acho que foi mera parábola do destino descobrir neste dia uma doença totalmente masculina.

        No livro citado acima, Lance conta tudo sobre como descobriu a sua doença. Relação com os amigos e familiares, médicos e patrocinadores, tudo com muita veracidade e pitadas de humor e emoção. Minha mãe já o leu e agora minha esposa esta nas entrelinhas. Eu serei o próximo da lista e sugiro para quem tem interesse em não somente saber mais sobre o meu caso - que é de fato menos grave que o dele, se assim posso dizer – conhecer uma história de vida magnífica. De um homem que tinha somente uma saída, viver. E foi isso o que ele fez da melhor maneira possível.

        Não estou me comparando a Lance, até porque somos duas pessoas totalmente diferentes em tudo, mas a ligação que temos sobre a mesma doença é real. Até mesmo o nosso tratamento quimioterápico é idêntico no tempo e nas medicações. Pois como ele mesmo diz no livro, se você nunca visitou um setor de oncologia de um hospital faça isso. Lá você descobrirá que somos todos iguais. Que aquele senhor sentado ao seu lado conectado a vários tubos não é mais ou menos importante que você.

        Se eu posso passar algum aprendizado nesta minha primeira sessão de tratamento é de que você é e sempre será você mesmo. Não será um câncer que irá mudar suas atitudes ou pensamentos. O que muda em você é o jeito como olhar as coisas do dia. Você saberá dar prioridades a coisas nunca dadas antes e se desprenderá de outras que pareciam tão extraordinárias. Como Lance mesmo disse: “A dor é temporária, desistir dura para sempre”.    

terça-feira, 10 de julho de 2012

Crônicas de um Tumor (Alguns dias depois)


EXCELENTE
             
              Boa noite a todos. São 00h20min do dia 10 de julho de 2012. Estou cansado, olhos lacrimejantes, bocejos sucessivos e apreensivo para mais um dia de tratamento. Até ai tudo certo, apesar de não me acostumar com isso – e nem querer. Desde a última quinta-feira (05) não fiz mais nenhuma postagem por motivos de força maior (adoro dizer isso). Maaasss...! Estou de volta. Mais forte e mais bonito. É que cortei o cabelo hoje! Ele não caiu ainda.

                Tudo tem sido uma experiência fascinante. As idas e vindas ao setor de oncologia principalmente. Digo isso pelo simples motivo de ir e vir todo dia de um lugar onde você é você mesmo. Onde ali, você pode ser você, desde a hora que chega, até a hora que sai. Realmente sedutor essa coisa de sermos nós mesmos. Claro que não vou pedir para você ter essa experiência porque seria cruel demais de minha parte e também tenho certeza que não faria. Resumindo, nunca seremos os mesmo sempre. Sei que parece filosofia barata, mas é a pura verdade. Pense nisso quando conseguir ser você. Eu tentei e não consegui.

                Tenho feito uma metamorfose diária. Com um misto de Raul Seixas e uma fumada de Kafka. Às vezes acho que estou ambulante e no outro me imagino um inseto qualquer. Essas incertezas na minha vida são tudo culpa da medicação e principalmente da falta de motivação para tarefas simples do dia, como levantar e pegar um copo com água. Ok vou parar de viajar, pois a única coisa que quero neste momento e ir dormir sem a sensação de estar com um elefante dentro barriga.

                Neste dia 09 de julho de 2012 melhorei bastante no período da tarde. Senti-me mais disposto e até voltei a dirigir. Coisa que amo fazer. Resolvi algumas questões financeiras outras burocráticas, comi bastante e voltei para casa com a minha esposa e minha mãe sempre atentas aos meus passos. Dei risada da bagunça das minhas duas cadelas e do meu cão. Tudo isso sempre acompanhado da minha querida náusea. Companheira inseparável. Contudo, vou me deitar com uma grande dúvida. Se a minha vontade de vomitar é por conta da quimioterapia ou por conta das atitudes dos nossos governantes de todas as esferas desse imenso país de guerreiros e guerreiras. Seria ótimo se um tratamento quimioterápico pudesse curar a farsa, porque o diagnóstico já esta feito a mais de 500 anos.

                 
                    

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Crônicas de um Tumor (D4)


Boa pra frente que a estrada é longa!

 Olá amigos e familiares, infelizmente hoje terei de ser breve nas minhas palavras. Neste quarto dia de tratamento não passei bem. Muito enjoo e sensação de desconforto para fazer as tarefas básicas do dia, como apenas ficar deitado. Agora estou melhor, pois passei à tarde de repouso. Mais parecia que uma bigorna estava sobre a minha cabeça. Apesar desses sintomas consegui comer um pouco de sopa da Rainha pra me manter e comer algumas frutas.

No hospital tudo correu tranqüilo. Nada de novo aconteceu. Tirando alguns cancelamentos de quimioterapia por falta de medicamento, para pacientes que ainda não iniciaram o tratamento. Uma pena, pois uma equipe tão dedicada de enfermeiros mereceria todo o material do mundo para atender a esses casos tão especiais de combate ao câncer. 

Tenho certeza que na mesa do, ou dos principais responsáveis, pela compra desses medicamentos não falta comida. Muito menos medicamento para um de seus familiares que por um acaso estejam passando por isso como eu e tantos outros. Este descaso com a compra de medicamentos tão importantes só demonstra a fragilidade ou falta de importância para com os inúmeros pacientes num momento de pura imersão de cura. Só isso que queremos neste momento, nos entregar para curar.

Desculpem-me o desabafo. Antes de tudo, neste momento sou um cidadão que precisa de tratamento e atenção por parte dos responsáveis deste hospital. E assim por diante muitas outras pessoas passarão por ali e também irão querer o melhor tratamento possível. Com seus medicamentos sempre esperando para sua cura. Talvez o motivo desse atraso seja por conta de um câncer quase incurável neste país, o câncer da burocracia.

Beijos e abraços a todos!


quarta-feira, 4 de julho de 2012

Crônicas de um Tumor (D3)


Fred de branco, Safira ao lado e Jade folgada apoiada na gorda!

Como disse ontem, menos um dia de tratamento se foi. Hoje, no terceiro dia de aplicação quimioterápica passei muito bem obrigado. Tenho me alimentado de forma interessante nesses dias. Muitas frutas, muita água e principalmente muita calma para não deixar a peteca cair. Isso mesmo, pois apesar de aparente boa forma física a mente às vezes dá alguns erros de leitura. Sabe como é! Temos que recarregar as baterias também.

Ontem eu estava tão bem em comparação ao primeiro dia que fui recarregar minhas energias em Balneário Piçarras e matar a saudade da cachorrada. Leia-se: Safira “o mundo pode acabar”, Jade “ranzinza” e Frederico “o fura-cão”. Esses são os três donos da casa. Minhas alegrias e desesperos a cada arruaça que eles aprontam no quintal. Mas fazer o que? 

Conheci mais alguns causos na oncologia hoje. Uma menina de 28 anos com um tumor retirado de trás da tireóide. Uma senhora com leucemia. Um senhor com um tumor no esôfago e que já havia passado por 35 sessões de radioterapia e estava no leito ao meu lado aplicando quimioterapia falando como um garoto das suas histórias de vida. Um grande exemplo. Também conheci um senhor com o mesmo problema que eu, mas o dele era no testículo direito e já havia feito suas sessões de quimio. Estava por lá hoje apenas para entregar exames.

O cabelo continua firme e forte, claro que um pouco mais fino, mas ainda não caiu. Sinto mais sono do que antes do tratamento e tenho dormido feito uma pedra. A disposição também não é a mesma, mas a perseverança em continuar na ativa durante este tratamento é maior que tudo. Tenho procurado seguir minha vida como sempre foi, claro que com um pouco mais de cautela. A única coisa que tem me incomodado são as crises de soluço. Ainda não descobri porque, mas acredito que seja de tomar muita água. Logo passa.

Obrigado mais uma vez pela atenção de todos!  

terça-feira, 3 de julho de 2012

Crônicas de Tumor (D2)


SOPA DA RAINHA
    
 Menos uma sessão de quimioterapia se foi. Hoje estou bem, mais disposto e não vomitei como ontem. Consegui trabalhar a tarde e me ocupar com a mente, deixando um pouco o restante do corpo de lado e focando no exercício intelectual. Contudo, sempre se lembrando da alimentação e tomando bastante água. Essencial para minha recuperação, pois um dos medicamentos pode me causar insuficiência renal. A garrafinha de água tem se tornado minha companheira.

     Hoje recebi as mesmas doses de ontem com um medicamento a mais que durou cerca de meia hora. Durante toda a manhã observei pacientes e acompanhantes entrando e saindo de seus tratamentos. Uns já carecas e pálidos outros fortes e corados como se nada estivesse acontecendo, outros com os olhos esbugalhados ao ver tantas pessoas e mangueiras conectadas a elas, outras sozinhas sem nenhum acompanhante. O que para mim e minha esposa é um descaso da família, pois percebemos que sim, eles têm familiares, ainda mais por se tratarem de pessoas idosas. 

     No caso de hoje uma senhora que começou sua quimioterapia foi perguntada pela enfermeira quem a estava acompanhando e ela respondeu que um vizinho a tinha levado ao hospital. Indignada a enfermeira exclamou: “Vizinho, cada a sua família”. A senhora apenas silenciou.  Uma pena para a importância de tal tratamento, pois quem ajudou esta senhora a ir ao banheiro foi a minha esposa.

     Contudo, a vida continua, amanhã mais um dia pela frente e mais idas e vindas ao banheiro. Culpa de muito soro e água. Assim vou em contagem regressiva para o fim do tratamento. Faltam só treze. O cabelo continua firme e forte e acima de tudo a vontade de seguir de cabeça erguida. Guerreiro de fé. 

     Quero destacar o trabalho do pessoal do setor de oncologia do Hospital São José. Fiquei empolgado com o atendimento. Ao chegar hoje minha cama já estava marcada com meu nome e a medicação não precisei esperar mais do que cinco minutos para aplicar. Todas as enfermeiras sempre solicitas e com um sorriso no rosto, mesmo com tantos pacientes a serem atendidos. Tenho que destacar ainda o meu melhor remédio nestes dois dias de quimio. Minha esposa, mulher guerreira e de um caráter incomparável. Sempre ao meu lado e disposta a tudo pela minha melhora. Te amo minha rainha!

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Crônicas de um Tumor (D1)

   
    Nada como uma dose de quimioterapia para nos dar enjoo. Primeiramente quero agradecer a todos e a todas pelo enorme carinho e palavras de força nas ligações, no Facebook, por e-mail e pessoalmente. Vocês são demais, pessoas que amo a passo a amar ainda mais e pessoas que estou aprendendo a amar. A vida tem me ensinado muitas coisas nestes últimos cinco meses, mas a principal delas foi descobrir a verdadeira essência do ser humano, o carinho. Pode parecer pouco, no entanto é o suficiente para me manter de cabeça erguida.

    Vou explicar o meu caso a vocês. Estava trabalhando em Brusque – SC na construção de um projeto Minha Casa Minha Vida para uma empresa de engenharia civil de Blumenau. Estava bem instalado na cidade do marreco recheado e de grandes amigos. Numa quinta-feira de março, minha esposa que estava morando em Joinville saiu de férias e foi para Brusque ficar comigo. Neste dia, conversa vai conversa vem, decidimos pesquisar na internet o porquê do inchaço no meu testículo esquerdo. Cheque-mate, o Dr. Google matou a charada: Tumor.

     Resolvemos então correr para o hospital em Brusque mesmo, para ver o que estava acontecendo e o que não queríamos se confirmou. Na terça-feira seguinte já estava na mesa de cirurgia para a retirada completa do testículo esquerdo onde se encontrava o tumor. A partir daí me recuperei da cirurgia e fui para casa. Procuramos um oncologista que nos deu todo suporte e explicações necessárias sobre o caso. Com as seguidas baixas nos índices tumorais foi diagnosticado que a principio não necessitaria de quimioterapia, mas de um acompanhamento mensal de exames de sangue e trimestral de tomografia para o controle dos índices deveria ser feito. Contudo, no último exame que realizei em Brasília onde estava a trabalho e ficaria por aproximadamente quatro meses, aconteceu as alterações indesejadas. Então voltei a Joinville para fazer este tratamento quimioterápico.

     Hoje foi a primeira sessão. Cheguei por volta das sete e meia da manhã no setor de oncologia do Hospital São José e logo fui encaminhado aos procedimentos. Primeiro uma dose de soro para hidratar, alguns minutos depois chegou à primeira dose de medicamentos. Duas horas aplicando. Tudo certo. Depois mais uma dose de medicamento, uma hora aplicando. Tudo certo. Mais um pouco de soro e fui liberado por volta do meio dia. Sai e fui para casa da minha sogra almoçar. Tudo certo também. Mas como eu disse anteriormente, nada como uma boa dose de quimioterapia para dar enjoo. O cartão de boa vindas foi dado, vomitei por volta da quatro horas da tarde. Amanhã tem mais. Grande abraço a todos!